Sabrina Noivas 129 - The Millionaire Takes a Bride
 
Futuro noivo... Mas de quem? O rico empresrio de Nova York, Jackson Bradshaw, sempre conseguia o que queria, mas, desta vez, o que ele no queria o levara a uma pacata cidadezinha no Texas. Tudo porque tinha de impedir seu irmo de se casar com uma oportunista chamada Gergia Price! Porm, quando a bela me solteira Gergia Price abriu a porta, ele descobriu que era a irm dela que ia se casar com seu irmo. Ora, fora enganado! Mas, durante a tempestade que os isolou na casa de Gergia por dias a fio, acendou-se um fogo que Jackson nunca experimentara. Um fogo entre ele e a irm errada... Ou seria a certa?

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2002
Publicao original: 2001.  Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance contemporneo

CAPTULO I

Algum batia na porta. Com fora suficiente para sacudir as dobradias. Gergia Price registrou vagamente o fato em sua sonolncia.
Como se o local precisasse de ajuda para se despedaar, foi seu primeiro pensamento. Finalmente, sentou-se, firmou os ps no cho e passou a mo nos cabelos desgrenhados. Continuavam batendo.
	Est bem, est bem... Calma, camarada...  resmungou, enquanto vestia um robe de seda azul. Acendeu a luz do corredor antes de descer a escada.
Sem pressa, pensou. Tinha certeza da identidade do visitante, embora nunca houvessem se encontrado.
A luz acesa obviamente incentivou o intruso, que passou a vociferar l fora:
	Sei que est a, Will! Abra, raios! No vou embora enquanto no abrir a porta, est me ouvindo?
O tom era retumbante... e beligerante. Exatamente o que Gergia esperava, embora no contasse com a chegada de Jackson Bradshaw no meio da noite. O noivo de sua irm, Will Bradshaw, descrevera o irmo mais velho como um sujeito teimoso, de modo que se previa um encontro difcil. Mas aparecer em sua casa quela hora da noite no meio de uma tempestade era definitivamente desproporcional.
Quando Will a alertara sobre o irmo, ela no lhe dera muito crdito, mas agora percebia que no houvera exagero.
Com um suspiro, seguiu ao encontro das batidas cada vez mais vigorosas.
Gergia cogitou se o homem se tornaria violento, principalmente se soubesse que fora enganado pelos trs... ela, Faith e Will. O pequeno esquema fora ideia de Will. Com a ajuda de Faith, os jovens amantes convenceram Gergia a ajud-los a escapar da ira do irmo superprotetor de Will.
Talvez no devesse abrir a porta, considerou. Os habitantes da pequena Sweetwater, no Texas, costumavam receber a tiros de espingarda os estranhos que se atreviam a bater na porta quela hora da madrugada.
Mas Gergia no possua nenhuma arma. No permitia sequer que seu filho Noah brincasse com pistolas de gua. Alm disso, apostava como Jackson Bradshaw era um representante tpico do "co que ladra no morde". Tratando-se do diretor jurdico de uma empresa poderosa em Nova York, esperava que conseguissem conversar. Afinal, Will garantira que Jackson no era to mau... quando o conheciam melhor.
Mas naquele momento, gritando rouco do lado de fora, ele parecia o pior pesadelo.
	E ficarei aqui a noite inteira se for preciso...  berrava, zangado.
Gergia aliviou-se ao perceber que o barulho no perturbara o sono de Noah. Felizmente, seu filho sempre dormira bem, caracterstica que ela sempre agradecera, sendo me solteira.
	Bem, est na hora do espetculo  murmurou, ao chegar ao trreo. Respirou fundo, apertou o cinto do robe e abriu a porta.
Jackson Bradshaw estreitou o olhar sombriamente ao v-la. 
	Voc com certeza no se apressou em abrir a porta, moa. Essa  uma amostra da hospitalidade texana de que tanto ouvi falar?
	Falando em hospitalidade... sabe que horas so, se nhor...
	No se atreva a fingir que no sabe quem eu sou, Gergia Price  interrompeu ele, estreitando mais o olhar.
	Se h algo que me irrita  fingimento... principalmente da parte de uma mulher.
	Tenho certeza de que muitas coisas o irritam, sr. Bradshaw  respondeu Gergia, sorrindo.
	E eu tenho certeza de que meu irmo contou-lhe tudo a meu respeito, srta. Price.
	S os defeitos  replicou ela, mordaz.
	Que graa. Eu me lembrarei disso.
Jackson cruzou os braos e inclinou-se para a frente. Enquanto a avaliava demoradamente, ela pde analis-lo, tambm. Dentes brancos e bem arranjados contrastavam com uma pele bronzeada. Sulcos emolduravam a boca larga e sensual, e ruguinhas atraentes marcavam o canto dos olhos. A transformao era impressionante. Perigosa at, percebeu ela.
	Bem... no vai me convidar a entrar?  indagou ele, finalmente.
Gergia tinha muita experincia em aplacar homens intimidadores, mas, quando se encararam, sentiu um n na garganta.
	Claro, entre  convidou, a voz trmula.
Jackson adentrou o vestbulo e Gergia repreendeu-se por se deixar afetar pela boa aparncia dele. Ento, mais uma vez, surpreendeu-se.
Will falara muito sobre o irmo, mas nunca mencionara que Jackson era bonito. No a beleza evidente e bem-aca-bada dos modelos de revistas, mas aquela do tipo rude, que costumava lhe tirar o flego e disparar o corao. Trancou a porta e observou Jackson entrar na sala. Ele alisara os cabelos pretos, ora molhados, para longe da testa, expondo os ngulos agudos do rosto, o maxilar quadrado, o queixo bem definido, escurecido com a barba por fazer.
A camisa branca, mida, moldava-se a seu trax musculoso e ombros largos. Uma gravata de seda colorida... do tipo de grife cara... pendia frouxa do colarinho. Provavelmente, estava perdida, ponderou Gergia. Embora tivesse certeza de que, com o dinheiro dele, isso no seria problema.
Apesar de molhado e enlameado, Jackson Bradshaw ainda era o homem mais bonito que atravessara seu caminho em anos. No obstante, desviou o olhar.
Controle-se, moa, advertiu-se. Esse camarada  o inimigo.
Alm disso, a personalidade do homem negava o exterior atraente. Ele era o adversrio e Gergia o enfrentaria. Will, que bem poderia ser seu cunhado agora, se tudo tivesse ocorrido conforme o planejado, e sua amada irm Faith contavam com sua ajuda. Sendo assim, teria de ignorar a boa aparncia de Jackson Bradshaw, tendo em mente que ele estava determinado a destruir a preciosa chance de felicidade de sua irm com o homem que amava.
E por nenhum motivo razovel.
Segundo Will, Jackson fora rejeitado aos vinte e poucos anos por seu primeiro amor, uma jovem com quem ele esperava se casar. Aparentemente, o pai deles no aprovava a moa, convencido de que ela estava interessada apenas na fortuna dos Bradshaw. Ele se encontrou com ela secretamente e a convenceu a romper com Jackson e desaparecer, em troca de uma boa spma em dinheiro. Isso, seguido da perda precoce da me, marcara tanto Jackson que ele nunca mais confiara em mulher alguma no que se referia a relacionamentos romnticos. Infelizmente, Jackson no desconfiava s das mulheres que se aproximavam dele, mas tambm daquelas que se envolviam com o irmo Will.
Bem, era uma histria triste, com certeza, admitiu Gergia, aproximando-se do visitante. Mas todos viviam episdios tristes ao longo da vida, ela sabia disso melhor do que ningum. Uma nica experincia ruim no justificava arruinar a vida de outras pessoas.
Jackson a fitou raivoso.
	Muito bem, onde ele est?
	No sei de quem est falando  afirmou Gergia.
	Claro que sabe, raios! No me venha bater os clios em torno desses olhos grandes. Sou imune ao seu charme, srta. Price. Viajei trs mil quilmetros desde Nova York, dirigi por trs horas desde o aeroporto at este fim de mundo perdi-me cinco vezes na estrada e caminhei os ltimos dois quilmetros na chuva!  Ele comeara controlado, mas ento fora se alterando e agora praticamente gritava.  Traga Will aqui, agora! Estou cansado de joguinhos.
Gergia fitou-o por alguns segundos. Ento, riu, encobrindo a boca com a mo. Talvez fosse uma reao nervosa. Ou talvez um reflexo defensivo, com o qual provava que no se impressionava com a ferocidade do visitante.
Mas era mesmo engraado, quando se pensava bem, concluiu ela. Jackson Bradshaw parecia um homem com uma misso, externava um brilho obsessivo nos olhos castanhos. Ele realmente acreditava que chegara na hora exata de impedi-la de se casar com Will Bradshaw. Will, que ele achava que se escondia em algum lugar da casa.
	No gosto que se divirta  minha custa, srta. Price 	avisou Jackson, severo.
	Por favor, chame-me de Gergia  sugeriu ela, simptica.  J estamos nos tratando aos berros e tudo.
	Est bem, Gergia  concordou ele, com dentes cerrados.  Agora, ou diz a Will para vir aqui me encarar, ou eu o procurarei do poro ao sto.
	Como quiser.  Ela fez um gesto vo.  Mas no vai adiantar. Will no est aqui.
Jackson correu o olhar pela sala, como se esperasse flagrar o irmo saindo de detrs do sof ou da cortina. Ento, fitou Gergia, obviamente considerando o prximo passo.
	Acredito  cedeu, finalmente, e massageou o maxilar. 	Duvido de que meu irmo ficasse tanto tempo escondido vendo uma dama enfrentar o drago sozinha.
Gergia observou-o andar de um lado a outro. Junto  janela, ele contemplou a tempestade e deixou a cortina voltar ao lugar. Ora, ela nunca fora chamada de dama antes. Era um tanto piegas... mas doce.
	Ento, por que ele no est aqui?  insistiu Jackson.
	Vocs so supersticiosos? No  bom o noivo ver a noiva antes do casamento?
	No sou nem um pouco supersticiosa  assegurou Gergia.  Mas Will . Engraado para um cientista, no ?
	Muito engraado  concordou Jackson.  Mas onde ele est? Podia me dizer logo e nos poupar muito aborrecimento.
	Eu no sei  respondeu ela, simplesmente. Quando ele a fitou, incrdulo, deu de ombros.   verdade.
Jackson ia dizer algo, mas contraiu os lbios e suspirou. Ela imaginava se ele desistira ou se apenas pensava no prximo passo a dar.
Gergia o viu analisar a sala novamente. A expresso dele passou de apreciativa a desdenhosa, e ela logo intuiu por qu: ele era rico e esnobe. Estava acostumado com o que de melhor a vida tinha a oferecer... casa de campo em Connecticut, apartamento na Park Avenue, escolas particulares, faculdades de primeira linha. Ela, por sua vez, crescera numa cidade atrasada, semelhante a Sweetwater, sara de casa grvida e solteira aos dezessete anos e s completara o ensino mdio.
Aps anos trabalhando em empregos subalternos, conseguira a casa prpria e um negcio s seu, um avano do qual se orgulhava.
Embora achasse confortvel aquela casa que decorara conforme seu gosto e estilo, Gergia entendia como o ambiente devia parecer simplrio aos olhos de um homem to rico. Objetiva, estudou a disposio dos mveis e objetos do ponto de vista dele. O sof, da dcada de 1890, podia ser considerado uma relquia, se conseguisse arranjar dinheiro para reformar o estofamento como se devia. A cadeira de balano, estofada com veludo, tambm precisava de reforma. Dera de mamar a Noah naquele balano, que lhe trazia doces lembranas.
O tapete oriental que cobria o assoalho de madeira polida j vira dias melhores. Mas Gergia tinha outras prioridades no momento. Pagar as contas, por exemplo. Alm disso, esperava que algum tapete adequado aparecesse em sua loja. Por que pagar por um tapete se, cedo ou tarde, conseguiria um de graa?
	Voc coleciona antiguidades, pelo que vejo  concluiu Jackson.
	Algumas peas so antiguidades. Outras so simplesmente... velhas  admitiu Gergia.  Consigo a maior parte dos objetos atravs do meu negcio. Tenho uma loja na cidade  explicou.   uma combinao de loja de lembranas, antiguidades e roupas da moda. Vendemos de tudo l.
	Sim, eu sei. "O Sto"  adiantou-se ele, convencido e perspicaz.
	Isso mesmo.  Gergia ergueu o queixo. Tinha um metro e setenta e cinco, alta para uma mulher. Mas Jackson tinha por volta de um metro e noventa, por seus clculos.
Quando ele a olhava de cima, sentia-se quase... pequena. Era uma sensao que ela no experimentava com frequncia na companhia de um homem.
Jackson andava pela sala como um tigre enjaulado, praticamente grunhindo. Pegou um prato de porcelana na mesinha e verificou a procedncia. Reconheceu a marca de prestgio e o padro no mais comercializado. Apesar da trinca leve, valia algo, principalmente para um colecionador.
	Bonito  elogiou, enquanto recolocava no lugar.  Da sua loja, tambm?
	.
	Imagino que no fature muito, se pega as melhores peas para si mesma.
	Faturo bem  afirmou Gergia. Que audcia. Como se fosse da conta dele quanto ela faturava.
Jackson riu, um som spero, cruel, que contradizia sua declarao.
	No precisa disfarar. Sei muito bem o tipo de comrcio que "O Sto" faz... ou no faz.
Ela franziu o cenho.
	No entendi.
	Est na lona. Andei investigando, srta. Price. Sua margem de lucro no  muito... impressionante.
Gergia enrubesceu at a raiz dos cabelos. No lucrava muito com a loja, era verdade. Mas tinha os livros. Escrever era seu hobby havia anos, mas, se sua editora estivesse certa, ganharia mais dinheiro com que j sonhara com seu segundo romance de mistrio, que logo chegaria s lojas e j recebera vrias crticas favorveis.
Mas talvez o sr. Sabidinho no desconfiasse disso, considerando que ela escrevia sob pseudnimo. Apesar do alerta de Will de que o irmo vasculharia sua vida, a simples ideia de que ele a investigara... a espionara... deixava-a fora de si.
	O senhor  a ltima pessoa na terra que estou interessada em impressionar, sr. Bradshaw  esclareceu, controlada.  Mas, se investigou direito, sabe que tenho outras fontes de renda.
	Aposto que tem  desdenhou Jackson, spero.  Como meu irmo, por exemplo? Bem, depois de hoje, pode tirar Will Bradshaw de seu balancete. Ter de encontrar outro namorado rico para sustentar seu estilo de vida emergente.  claro que seu gosto exceae em muito os seus rendimentos, srta. Price.
Gergia estava chocada demais para falar.
	Claro, com sua aparncia, no deve ser difcil encontrar outro bobo rico prosseguia o visitante, ofensivo.  Com esse rosto... e corpo para combinar... no estou surpreso que tenha feito gato e sapato de um ingnuo como Will.  Apreciou-a da cabea aos ps, com um olhar lascivo que a fez se sentir nua.
Embora soubesse estar vestida decentemente, Gergia agarrou a gola do robe.
	Mas o senhor  mesmo muito impertinente! Primeiro, aparece no meio da noite na porta da minha casa, gritando feito um louco. Depois, insulta-me dessa maneira!
Sabia que apenas desempenhava seu papel, mas como aquele arrogante se atrevia a acus-la... acusar qualquer mulher que conhecia havia cinco minutos... de ganhar dinheiro com favores romnticos?! Alm disso, se Will quisesse dar presentes  namorada, mesmo dinheiro, era assunto s dele.
	Que cara de donzela indignada...  desdenhou Jackson.  A flor inocente e sensvel, menosprezada e difamada por um bruto. Feri tanto a sua sensibilidade, srta. Price? Bem, deixe-me colocar de outra forma, ento. Pelo que sei, voc ... como diriam nos velhos tempos... uma oportunista. Simples e claro, uma pessoa que est atrs do dinheiro de meu irmo. Mas, se acha que vai se casar com ele, est enganada.
	O senhor  que est enganado, sr. Bradshaw  replicou Gergia, no mesmo tom.  Seu irmo  um adulto inteligente e responsvel que pode e vai escolher com quem se casar. E sem a sua interferncia ou aprovao, devo acrescentar.
	Voc no vai se casar com ele  rebateu Jackson Bradshaw. Fulminando-a do outro lado da sala, tinha a silhueta contrastante com a escurido alm da janela. Jackson era um homem intimidador, percebeu ela. Intimidador, enervante... e mesmo assim... extremamente atraente.
Naquele instante, Gergia sentia desprezo por ele... no apenas por si mesma, mas pela irm, tambm. Will tinha razo. A gentil Faith nunca seria capaz de enfrentar aquele homem. Ela, que se considerava bem mais forte, encontrava dificuldade em sobrepuj-lo. Como ele se atrevia a julg-la com to pouca evidncia... seu sof velho e sua loja modesta. No suportava pessoas que mediam o valor dos outros de forma materialista e superficial.
No entanto, mesmo desprezando-o, Gergia sentia uma fora eltrica potente, velada, entre os dois. Era uma fora que a atraa, enquanto ele se aproximava na sala fracamente iluminada.
Jackson estacou diante dela, a poucos centmetros de distncia. Gergia pensou em recuar, mas suas pernas pareciam enraizadas. Estando to prximos, restou-lhe estudar as linhas do rosto bonito, os olhos castanhos, a boca larga e macia...
	Vamos. Negue  desafiou ele.
	Negar o qu?  indagou ela, confusa. Distrara-se.
A proximidade do homem causara curto-circuito em seu raciocnio.
	Negue que planeja se casar com meu irmo. Amanh, na igreja local.
	No pretendo me casar... alis, nunca pretendi me casar com seu irmo  esclareceu Gergia, sria. No revelaria que, para enganar os investigadores contratados por Jackson Bradshaw, ela, Will e Faith haviam elaborado um plano e criado uma pista falsa convincente, incluindo tirar uma licena de casamento na cidade e mandar imprimir uma nota no jornal local anunciando o noivado. Tudo na esperana de atrair Jackson ao Texas, enquanto Will e Faith partiam para local desconhecido para se casarem. 
	No minta para mim...
Ele se aproximou mais e Gergia teve de inclinar a cabea para trs para encar-lo.
	Eu sei, fui alertada. Voc no suporta fingimento... principalmente de mulheres.
Jackson no disse nada. Apenas continuou ftando-a, uma expresso inescrutvel no rosto. Nos olhos, Gergia via um brilho... seria de raiva ou desejo?
Quando ele a segurou pelos braos, Gergia no se surpreendeu. O toque era firme, e ela sentiu seu calor atravs do tecido do robe. Sabia que, se tentasse se desvencilhar, ele a apertaria mais. Mas, por algum motivo, no se assustava com a ideia.
	No consigo imaginar voc com meu irmo  confessou ele, num tom ntimo que a deixou ansiosa.  Voc no  o tipo dele. Nem um pouco.
	Verdade?  retrucou Gergia, vagamente divertida.  Acha que sou alta demais? Ou impertinente demais?
	Voc  insuportvel. O tipo que precisa de um homem mais forte do que meu irmo no comando, sabe?
	Mas s nos conhecemos h... quanto? Dez minutos? Como pode saber qual  o meu tipo?
	Ah, eu sei  assegurou ele, irnico.  Sei tudo sobre voc, Gergia Price. Tudo de que preciso saber. Creia-me.
Ele se aproximara mais? Gergia no tinha certeza. Mas continuava ciente da proximidade, do calor do corpo msculo, do cheiro viril na pele.
Gergia no pde sustentar o olhar e desviou o rosto. No conseguia raciocinar.
	Est enrubescendo?  Ele lhe tomou o queixo e a obrigou a fit-lo.  Hum... est. Que encantador  adulou, sarcstico.  No pensei que fosse o tipo que enrubesce.
Ou seria uma encenao? Uma tentativa de me cativar?
	Ca... cativar?
	Parece surpresa. Eu disse algo impossvel?
	No seja ridculo.  Gergia tentou se desvencilhar, mas ele apertou as mos em torno de seus braos. De algum modo, ela conseguia manter a calma apesar da ansiedade. Seus rostos estavam muito, muito prximos e, quando ele se concentrou em sua boca, alarmou-se, achando que ele ia beij-la.
	Ridculo... sim, claro  murmurou ele, rouco, ainda fitando os lbios.  Eu lhe asseguro, srta. Price, estou me esforando para no ser...
Ento, inclinou a cabea, ao mesmo tempo que lhe erguia o queixo. Gergia pensou em protestar com veemncia, mas s conseguiu espalmar as mos contra o trax poderoso. A sensao dos msculos encordoados no foi o banho de gua fria de que ela precisava naquele instante. Pelo contrrio, o contato com o corpo msculo e quente exerceu o efeito oposto, bloqueando completamente sua capacidade de raciocnio.
Gergia suspirou e fechou os olhos... um sinal de pura frustrao e de rendio. Era o incentivo de que Jackson precisava. Ele a abraou e aprofundou o beijo.
Foi chocante.
Foi maravilhoso.
Foi pura revelao.
Apesar de todas as objees morais e racionais quanto a beijar um homem que mal conhecia... principalmente aquele homem... Gergia deixou-se arrebatar pelo momento e entregou-se  onda de prazer sensual que de repente tomou conta de seu corpo e de sua alma.
Extasiada, levou as mos aos ombros de ao e tocou nos cabelos midos dele. Jackson deslizava a boca sobre a dela, provocando, experimentando. Gergia gemeu baixinho e o som o inspirou a agir com mais ardor.
Cus, fazia meses... no, anos... desde que fora beijada daquela forma... J fora beijada daquela forma?
Ento, quando Gergia j ia pedir socorro, foi salva'por uma voz infantil vinda do alto da escada:
	Mame?
Noah. Ele acordara.
Gergia pulou dos braos de Jackson como se tivesse sido marcada a ferro. Correu ao p da escada e olhou para cima. Seu filho era capaz de dormir durante um tornado, s para acordar ao som de uma escova caindo no tapete num outro cmodo.
	Est tudo bem, querido. Volte para a cama. Subo num minuto para cobrir vo.
O menino esfregou os olhos, sonolento, e no obedeceu, esperando que a me fosse a seu encontro.
	Ouvi vozes... Parecia que voc conversava com algum... Tem algum a?
Gergia imaginou se devia contar uma mentirinha, daquelas que ajudavam os pais a sobreviver, pois podia convencer Noah de que assistia ao noticirio na televiso. Mas Noah poderia se levantar de novo, descer e ver Jackson Bradshaw.
No corredor do primeiro andar, pousou a mo nos ombros da criana e a conduziu ao quarto.
	Mame tem visita. Mas ele ir embora daqui a pouco.
	Visita?  Noah parecia confuso. E com razo. Gergia raramente saa com amigos e nunca trazia homens para casa, por considerao ao filho.  Quem?
	S um homem que se perdeu na estrada com a chuva  resumiu ela. Ficou satisfeita com a explicao, que no era uma mentira total, j que Jackson lhe contara sobre sua jornada at ali.  O carro dele quebrou perto da nossa casa e ele est tentando conseguir carona para a cidade.
Pronto, isso satisfaria at a mente insacivel e curiosa de Noah.
Afastou o acolchoado da cama dele.
	Muito bem, agora, dormir.
	Como  esse homem que vai pegar uma carona para a cidade?  indagou Noah, subindo na cama com seu pijama de estampa infantil.  Ele nunca vai conseguir uma carona para a cidade no meio da noite, mame.
	Hum... veremos.  Gergia prendeu o acolchoado sob o corpinho do filho e beijou-o na testa.
Ao descer a escada, ela percebeu que Noah tinha razo, como sempre. A nica forma de Jackson Bradshaw voltar  cidade quela hora seria levando-o ela mesma ou emprestando-lhe seu carro. s duas horas da madrugada, nenhuma das alternativas parecia adequada.
Encontrou Jackson novamente junto  janela, apreciando a chuva com as mos nos bolsos. Ao se voltar, fitou-a com expresso distante, como se o encontro ntimo jamais tivesse ocorrido.
Melhor assim, decidiu Gergia. Detestaria ter de fazer algum comentrio ou anlise. O momento fora como um sonho, uma fantasia louca. Ainda no entendia a prpria reao e no conseguiria explic-la de forma alguma.
	Seu filho est bem?  indagou Jackson, educado.
	Est  respondeu ela.
	Desculpe-me por t-lo acordado. Espero que ele no esteja assustado por ouvir uma voz estranha em casa no meio da noite.
Ela se surpreendeu com a considerao dele por Noah. Seria encenao, planejada para faz-la baixar a guarda? O beijo impetuoso fora uma armadilha tambm?
	Expliquei que o seu carro quebrou na estrada e que voc veio aqui pedir ajuda. Ele disse que ser difcil voc consegiiir carona de volta para a cidade a esta hora da madrugada.
	Pelo aspecto da cidade, desconfio de que ele tenha razo. Na verdade, quase perdi a entrada, quando vinha pela via principal.
	No  assim to insignificante  protestou Gergia.  Mas Sweetwater no tem servio de txi vinte e quatro horas. Alis, no temos txi nenhum.
	E suponho que, mesmo que eu consiga uma carona, no haja um hotel, certo?
	Claro que h  afirmou ela.  A pousada E-Z. Cerca de cinquenta quilmetros ao norte na estrada 6. Os caminhoneiros parecem gostar de l.
Ela tentou imaginar Jackson Bradshaw passando a noite na pousada E-Z e mal disfarou o riso. Com certeza, no se comparava aos hotis de luxo de Nova York...
	Eu devia ter adivinhado  replicou ele, o tom sombrio e resignado. Suspirou e esfregou os olhos.  Bem, talvez voc possa me emprestar um guarda-chuva. Parece que vai continuar chovendo e  uma longa caminhada at meu carro.
	Seu carro? Pensei que tivesse dito que tinha pifado.
	E pifou, mas a^locadora s ir substitu-lo amanh  tarde. Se a chuva parar, bem-entendido.
	Sendo assim, por que vai voltar ao carro?  questionou Gergia.  Se deixou valores l, no precisa se preocupar. Podemos estar no fim do mundo, mas no temos crimes por aqui.
	Fico satisfeito em saber, srta. Price. Pelo menos, no vou temer por minha vida dormindo na estrada. Tem um guarda-chuva sobrando ou no?
De repente, ela entendeu. Pobre homem. Estava crente em que ela o expulsaria de casa debaixo de uma tempestade. Como se ela pudesse tratar seu pior inimigo daquela forma. Teve vontade de rir, mas conteve-se.
	No seja tolo. No precisa dormir no seu carro. Pode ficar aqui, no sof.  Ambos olharam para o velho mvel. O estofamento pareceu mais precrio do que o normal a Gergia, e ela no tinha dvida de que ele ficaria com os ps de fora. Quase teve pena de Jackson... se ele no fosse to arrogante. Mas ele no tinha opes melhores. Aps insult-la daquela forma... tinha sorte por ela permitir que ele ficasse.
Jackson devia estar pensando a mesma coisa.
	Obrigado.  uma oferta gentil. Considerando a situao...
	Sim, considerando a situao.  Ela tomou a escada, avisando que traria cobertas e travesseiros. Ento, lembrou- se de que as roupas dele tambm estavam molhadas e seu desconforto devia ser grande.  Quer uma camiseta ou algo assim?
	... sim. Seria timo  respondeu ele, surpreso com a considerao.  Isto , se tiver algo que me sirva.
	Devo ter  respondeu Gergia, e foi revirar os armrios. Lembrou-se das camisetas grandes que usava quando levava Noah  piscina. Uma delas deveria servir  visita inesperada. Tinha tambm calas grandes de moletom.
Reuniu lenis, cobertores, toalhas limpas e alguns itens de toalete, mais uma camiseta preta enorme e uma cala de moletom cinza. Desceu carregada e viu Jackson na cadeira de balano, de cabea baixa e olhos fechados.
Jackson respirava profundamente... quase roncava, observou ela. A expresso relaxada enfatizava seus traos bonitos. Ele abrira a camisa at a cintura e Gergia enrubesceu ao ver o trax musculoso, com uma camada de plos que iam at o abdome.
Que assanhamento, censurou-se, virando o rosto. Com um suspiro lnguido, pousou os itens na poltrona e arrumou o sof.
Aps arrumar os itens de toalete na mesinha, Gergia aproximou-se de Jackson. Ele dormia to profundamente que ela imaginou se devia acord-lo. Decidiu que sim, pois ele acordaria todo dolorido se passasse o resto da noite na cadeira de balano.
	Jackson?
Ele no abriu os olhos imediatamente, embora ela notasse um leve sorriso e conclusse que a ouvira.
	Vamos, Jackson. Hora de ir para a cama  chamou, inclinando-se mais para a frente.
	Gergia...  murmurou ele. Ela gostava do jeito com que ele pronunciava seu nome. Como se a chamasse num sonho. Foi quando ele acrescentou:  Sim... vamos para a cama, querida...
Ela se endireitou rpido.
Jackson piscou, tossiu e a fitou, o sorriso relaxado substitudo por um olhar cauteloso.
	Acho que dormi  murmurou, esfregando o rosto.
	Acho que sim  concordou ela.  O sof est pronto e h mais alguns itens de que voc pode precisar na mesinha.  O banheiro fica ali,  esquerda da cozinha.
	 esquerda da cozinha...  repetiu ele, sonolento.  No se preocupe, vou encontrar. Obrigado novamente pela pousada... No precisa prender o acolchoado  provocou.
	E um alvio  respondeu ela. Voltou-se e tomou a escada.  At amanh.
	At amanh.  Jackson levantou-se e esticou braos e pernas.  O dia do seu casamento. Claro, talvez minha chegada tenha arruinado os planos. De qualquer modo, garanto que no vai se livrar de mim enquanto eu no encontrar meu irmo. Acamparei na sua sala, se for preciso.
	tima dia  respondeu Gergia. Oh, cus. Ele retomara a briga. Francamente, no sabia por quanto tempo conseguiria manter a farsa.
De repente, ficou tentada a contar tudo, mas achou melhor esperar at o dia clarear. Era imprevisvel como o homem reagiria. Se contasse agora, Jackson seria capaz de sair no meio da noite, determinado a caar Will e Faith.
No. Ele passaria a noite na sala, onde ela podia vigi-lo. Que continuasse acreditando que era ela a noiva esperanosa!
Afinal, ponderou Gergia, um homem como Jackson Bradshaw merecia ao menos uma noite de tortura no sof, por tentar impedir o casamento de sua querida irm.

CAPTULO II

Na manh seguinte, Gergia desceu e encontrou o sof vazio, as cobertas e acolchoados dobrados. A porta do banheiro estava fechada e se ouvia o barulho do chuveiro. J tomara seu banho e vestira cala jeans com camiseta azul-escuro, os cabelos curtos e encaracolados cor de mel ainda midos. No parecia uma mulher que planejava se casar naquele dia. Assim, seria difcil convencer Jackson Bradshaw.
Gergia no costumava usar muita maquiagem, por isso, apenas disfarara as olheiras com base e passara um pouco de brilho nos lbios. Precisava aumentar a autoconfiana naquela manh, a fim de enfrentar o "drago" novamente.
Colocou a cafeteira eltrica para funcionar e retirou da geladeira os ingredientes para o desjejum. Cozinhava bem... muito bem, diziam alguns... e esperava aplacar o temperamento de Jackson Bradshaw com uma boa refeio matinal.
Ele no devia ter comido nada no caminho, durante a jornada da noite anterior, e apreciaria um lauto caf da manh, com toicinho defumado crocante, panquecas doces, ovos mexidos e suco de laranja fresco. Ainda que a comida no modificasse sua personalidade beligerante, o ato de mastigar e engolir o impediria de vociferar e questionar, por algum tempo.
Esperava nova sesso de interrogatrio com relao ao paradeiro de Will Bradshaw. Ou Jackson pensava em dar planto ali, para agarrar o irmo antes que se casasse?
No o deixaria permanecer ali o dia todo, ponderou Gergia, misturando a massa de panqueca com energia. Algo naquele homem definitivamente... a enervava. No era apenas a personalidade difcil. Conseguia lidar com isso. Se ele fosse baixo, barrigudo, careca... ora, no teria problema nenhum em lidar com ele. Mas no, ele tinha de ser to... to... escandalosamente bonito, a ponto de fundir seu crebro toda vez que lhe sorria. Felizmente, ele era to mal-humo-rado que raramente sorria.
Baixou o fogo sob a frigideira com toicinho defumado e fatiou morangos numa tigela colorida.
No se sentia atrada por um homem havia muito, muito tempo. Seria engraado, se no fosse irritantemente perverso, que dentre todos os homens que conhecera recentemente, fosse se encantar por aquele em particular.
	 a minha sorte  concluiu, enquanto testava o calor da chapa.
	Que sorte?  especulou uma voz grave.
Gergia ergueu o olhar, tentando mascarar a surpresa.
	... s estava falando comigo mesma... sobre o tempo. Ainda chove forte.
	Sim, eu notei... Embora digam que d sorte chuva no dia do casamento.
	Oh, sim. Meu casamento. Quase me esqueci.  Bateu na prpria testa.  Obrigada por me lembrar.
	Em absoluto  replicou Jackson, sem estranhar.
De soslaio, enquanto trabalhava, Gergia deu uma boa olhada nele.
Jackson j lhe parecera bonito na noite anterior, com as roupas molhadas e a barba por fazer, mas naquele instante estava lindo. Tomara banho, vestira a camiseta preta e a cala de moletom cinza. Tambm usara o barbeador descartvel que ela deixara na mesinha da sala e s se cortara uma vez, no queixo. Teve vontade de passar a mo naquele rosto perfeito.
	Sirva-se de caf  incentivou, concentrando-se nas tarefas.  As panquecas ficaro prontas num instante.
	Est cheirando bem...  Ele se serviu de caf.  Nunca tive tempo para um caf da manh de verdade.
	Bem, este  de verdade, um "especial alto colesterol". Espero que no seja fantico por comida saudvel ou algo assim.
	Mesmo que fosse, com a fome que estou, acho que seria capaz de engolir qualquer coisa.
Gergia riu.
	Dormiu bem?
	Depois que passei do sof para o cho, sim.
	Sim, imagino que o cho seja mais confortvel  resignou-se ela.
Jackson se recostou no balco e sorveu o caf enquanto a observava. Gergia constrangeu-se sob o escrutnio. Gostaria que ele se sentasse  mesa ou algo assim, mas no disse nada. Disfarando o nervosismo, concentrou-se nas panquecas, pois no queria que a massa cozinhasse demais e ficasse dura. Testou as bordas com a esptula e ento virou o disco com destreza.
	Faz isso muito bem  elogiou ele.
	J fui cozinheira numa lanchonete  informou Gergia.  Um dos meus muitos empregos. Mas provavelmente voc sabe tudo sobre esse captulo excitante da minha vida, aps tanta... pesquisa.
	Minha pesquisa?  Jackson enrubesceu, apesar da pele bronzeada.  Oh, sim, lembro-me de ter lido isso  admitiu.  Cozinhar numa lanchonete  trabalho pesado para uma mulher  opinou.
	 pesado para qualquer um  corrigiu ela.  Mas a dona do lugar era compreensiva. Permitia que eu levasse Noah, quando ficava sem bab. 
	Levava o seu filho para o trabalho?  Ele parecia incrdulo.  Era... seguro para ele?
	No corria perigo, pois eu o deixava junto ao balco, na cadeirinha. Todas as garonetes se revezavam para segur-lo e brincar com ele. Faziam tanta festa que acabavam mimando-o. Ele devia pensar que tinha dez avs.
Gergia olhou para Jackson. Vinham de mundos to diferentes... planetas diferentes, na verdade. Ele no imaginava o que era trabalhar um ms inteiro para pagar as contas, o aluguel e ainda esticar o dinheiro para as compras de supermercado. No havia como lhe explicar aquela realidade. Seria desperdcio de tempo tentar.
	Se faltasse por causa de Noah, perderia o emprego  resumiu.  E eu precisava do salrio.
	Entendo.
	No, no entende  contrariou Gergia. Pessoas como Jackson Bradshaw podiam estudar a classe a que ela pertencia durante anos, mas nunca conheceriam os fatos em primeira-mo, nunca sentiriam na pele as dificuldades.
A cozinha de repente parecia pequena com a presena dele. O som da chuva batendo incessantemente nas janelas tornava o ambiente abafado.
De repente, Gergia pensou no beijo... na forma como reagira ao contato. Nenhum dos dois falara sobre aquilo depois, e ela com certeza no tocaria no assunto. Ao pensar no ocorrido, mais tarde,, cogitara a hiptese de ele a estar testando. Talvez tentasse descobrir se ela seria fiel ao irmo, ou era capaz de flertar com qualquer homem que cruzasse seu caminho. Mas no podia acreditar que um beijo to intenso e passional no passara de um teste.
Que importava? Tinham cedido a um momento de fraqueza. Viveram uma aberrao. Que no se repetiria. Ela no permitiria. Jackson Bradshaw era um esnobe. Como podia se sentir atrada por um homem como ele?
	Posso ajudar? Colocar a mesa talvez?
	Claro. Os pratos esto no armrio e os talheres, na gaveta  orientou ela.  Por que no liga o rdio para ouvirmos a previso do tempo?  acrescentou.
Os comentrios vibrantes de uma rdio local ajudaram a aliviar a tenso na cozinha, embora as notcias no fossem boas.
	E a chuva deve continuar durante todo o dia, pessoal, com alagamentos na estrada 6, a oeste e a norte da cidade. A maioria das estradas vicinais est intransitvel. Em outras palavras,  um timo dia para ficar em casa, quem puder... a menos que seja um pato!  brincou o radialista.
	Mas, se tiverem de sair hoje, no se esqueam de calar as galochas. Tem lama para todo lado, no  verdade, Wally? indagou ao parceiro.
	At os joelhos, rapaz!  exagerou o reprter. A sonoplastia soltou som de gente chapinhando na lama e Gergia riu.  Mas as nuvens vo dar trgua amanh  tarde, amigos...
	Eles no podem dar a previso sem gracinhas?  resmungou Jackson, mal-humorado.  Acho que a locadora no pode enviar um reboque com esse tempo, muito menos um carro substituto.
Gergia pousou sobre a mesa uma travessa com panquecas douradas recheadas de morango.
	, duvido.
Pelo jeito, permaneceria atolada com Jackson Bradshaw o resto do dia, a menos que houvesse uma pausa milagrosa naquela chuva intermitente. Concluiu que ele pensava o mesmo, a julgar por seus lbios franzidos.
	Panquecas! Legal! E nem  domingo!  Noah rompeu o silncio com sua voz animada ao entrar correndo na cozinha. Ento, notou o estranho e foi para junto da me.
	Noah, este  o homem de quem lhe falei... o que ficou na estrada ontem  noite. Ele se chama Jackson.
Gergia omitiu o sobrenome de Jackson. Noah era to inteligente que estabeleceria uma relao entre ele e Will... que ele j chamava de tio Will. Um deslize do menino e a farsa seria descoberta. Conseguiria lograr o homem at que a chuva parasse?
	Como vai?  saudou Jackson, educado.  Deve ser Noah.  Estendeu a mo e os dois se cumprimentaram  moda masculina.
	Como vai?  imitou Noah, estufando o peito.
Em encontros como aquele, Gergia se espantava ao ver o quanto seu filhinho amadurecera. Noah sempre fora um bom garoto, nunca lhe causara aborrecimento, mas tornava-se evidente que seus dias de beb estavam acabados. Ele j parecia um homenzinho. Os culos, que ele usava desde os quatro anos... com formato redondo e aro de tartaruga... davam-lhe um ar de seriedade. Para completar, a inteligncia notvel o fazia parecer mais velho do que seus oito anos.
As professoras afirmavam que Noah era mais do que inteligente, um abenoado. Pulara o segundo ano do ensino fundamental e poderia pular o quarto tambm. O menino j demonstrava tdio durante as aulas para crianas normais. Infelizmente, no havia programas especiais para crianas superdotadas no pequeno sistema pblico de educao da cidade, e Gergia no podia pagar escolas particulares.
Esperava que mais tarde, quando Noah fosse mais velho, pudesse lhe proporcionar um ambiente educativo desafiador, que alimentaria seu potencial intelectual. Por enquanto, fazia o que podia, comprando-lhe livros, brinquedos educacionais e encorajando-o m seus interesses variados. No vero, ele passaria duas semanas num acampamento especial de cincias, e j quase poupara o suficiente para lhe comprar um microcomputador no Natal. Will a ajudaria a escolher algo adequado. J existia uma forte ligao entre os dois. Noah ouvia fascinado as histrias sobre pesquisas cientficas de Will, e Gergia acreditava que o futuro cunhado seria uma influncia maravilhosa sobre seu filho.
Voltou-se para Jackson. Que tipo d influncia um homem como ele poderia exercer sobre Noah? Pois agora, embora Jackson nem desconfiasse do fato, eram todos aparentados, devido ao casamento secreto de Faith e Will.
Gergia levou o resto do caf da manh para a mesa. Sentou-se  cabeceira, enquanto Jackson ocupava o extremo oposto. Noah ficou entre eles. Calados por algum tempo, os trs se concentraram em saborear o desjejum.
 Chamou um guincho para tirar seu carro da lama?  indagou Noah, mastigando o toicinho defumado frito.
	Ainda no  respondeu Jackson.
	A tempestade no vai diminuir to cedo. Uma frente fria e seca est indo para o sul, sobre os Estados do meio-oeste, a trinta quilmetros por hora  explicou Noah aos adultos, num tom paciente.  Pode chegar esta noite. Ou pode ser desviada por outro sistema de baixa presso vindo da regio do golfo  considerou.
Jackson fitava o menino de olhos arregalados, o garfo com uma poro de panqueca a meio caminho da boca.
	No me diga.
	Noah se interessa muito por meteorologia  explicou Gergia.  Ele sintoniza uma estao especializada, no quarto dele.
	Posso ver o guincho quando ele chegar, mame?  pediu Noah, parecendo ter oito anos novamente.  Por favor?
	Veremos  protelou a me.
	Aposto que vo mandar um com plataforma!
	Talvez seja melhor mandarem um rebocador  replicou Jackson, rabugento, olhando a chuva pela janela. Limpou os lbios com um guardanapo.  As panquecas estavam uma delcia  elogiou, educado.
	Obrigada  respondeu Gergia. A comida o suavizara?
Havia dez minutos, ele no mencionava o irmo Will e seus planos de casamento.
	Aposto que Will consegue consumir uma dzia destas 	comentou Jackson.  Ele sempre adorou panquecas...
O rosto de Noah iluminou-se.
	Conhece meu tio Will?
	No seja tolo, Noah  repreendeu Gergia, nervosa. 	Como ele poderia conhecer tio Will? Ele est se referindo a... outra pessoa.
Olhou para Jackson e sentiu um n na garganta. Tarde demais. O estrago estava feito. A expresso dele era a de um leo que captara cheiro da presa.
	Voc tem um tio Will, ?  indagou ele a Noah, num tom casual.  Engraado. Eu tenho um irmo com esse nome...
	Que coincidncia  comentou Gergia, com o estmago embrulhado de repente.  Algum quer mais panqueca? Toicinho? Suco de laranja?
	Eu aceito outra panqueca, obrigado  declarou o filho.
Jackson voltou a ateno ao prato, obviamente considerando a tica de tentar arrancar informaes de uma criana
	Quando acabar o caf da manh, quero que suba e... limpe o seu quarto  orientou Gergia, com firmeza.
	Mas meu quarto est totalmente limpo  protestou Noah.  Voc me fez limp-lo ontem, mame, antes de me dar a mesada. No se lembra?
	E a gaiola do hamster?  insistiu Gergia.  Harry precisa da gaiola limpa. 
	Mas, me...  reclamou Noah, devorando mais uma poro de panqueca.
	No discuta com sua me, filho  ajudou Jackson.
Me e filho surpreenderam-se com a voz autoritria. Voltaram-se para o visitante. Gergia no sabia se agradecia... ou se o repreendia, por no ter o direito de interferir na educao de seu filho.
Noah pareceu conformado em obedecer.
	Est bem, est bem.  Levantou-se e levou o prato  pia.  Acho que a gaiola de Harry precisa mesmo de limpeza.
Gergia sentiu alvio ao ver o filho deixando a cozinha. Como se ela tivesse impedido um desastre iminente.
Mas o sentimento de catstrofe voltou quando Jackson se levantou com um sorriso nos lbios.
	Noah, eu adoraria ver o seu quarto  declarou, camarada.  Posso ajudar com o hamster?
Noah voltou-se da porta.
	Claro.  Ento, olhou para a me, pedindo aprovao.
Como Gergia estava chocada demais para protestar, interpretou o silncio como consentimento.
	Harry  nico  comentou Noah, reaproximando-se de Jackson.  Tem s trs pernas, mas isso no o incomoda. Corre na roda e tudo o mais. Tambm tenho um caranguejo ermito e uma salamandra  acrescentou, orgulhoso.
	No me diga  espantou-se Jackson.
	Tio Will me disse que, quando vier, na prxima vez, vai me trazer um rato de verdade. Um rato branco.
	Um rato branco, ?  Jackson recostou-se na cadeira, visivelmente fascinado com o rumo da conversa.  Ora, o que fez o seu tio pensar em lhe trazer um rato de presente? 
	Ele  cientista, ornitlogo. Isso significa que estuda pssaros. Ele se especializou em pssaros que vivem perto do oceano  explicou Noah.  Mas usam muitos ratos brancos na universidade onde ele leciona. No laboratrio... para experimentos e coisas assim.
	Oh, o seu tio  ornitlogo  repetiu Jackson, tranquilo.  Impressionante. Que coincidncia. Meu irmo Will  ornitlogo marinho, tambm.
O tom dele lembrava um trovo distante, comparou Gergia. Mas Noah no notou e continuou tagarelando.
	Tia Faith disse que j teve um rato branco de estimao e que mame achava o rabo dele medonho. Ela gritava sem pre que minha tia se aproximava com o rato.
	Tia Faith?  Jackson imprimiu um tom interrogativo na voz e Gergia sentiu o corao falhar uma batida.  agora, pensou ela, preparando-se.  Quem  tia Faith?  indagou Jackson, paciente.
	 irm de minha me  respondeu Noah, com a maior naturalidade.  Ela e tio Will ficaram aqui por algumas semanas, mas j foram embora para se...
	Jackson?  interrompeu Gergia.  Acho que precisamos conversar um pouco. Antes que voc v ver a coleo de Noah, quero dizer.
Ele fora longe demais, na opinio de Gergia. No ficaria parada vendo seu filho ser manipulado e envolvido num caos criado por adultos. Se algum tinha de contar a verdade a Jackson, esse algum era ela.
	Se voc acha, Gergia  respondeu Jackson, satisfeito com a certeza de que finalmente conheceria a verdade. S faltava esfregar as mos de ansiedade.
Mas, antes de atacar, ele pensou em Noah.
	Por que no comea a limpeza da gaiola de Harry?  sugeriu.  Eu subo em um minuto  prometeu. Em baraou os cabelos aloirados do menino.
	Est bem  concordou Noah, com um sorriso.  Vou preparar tudo l.
Gergia reconheceu que Jackson tinha considerao por seu filho. Ento, empederniu-se, pronta para a batalha. No podia nutrir sentimentos condescendentes por Jackson Bradshaw, ora seu antagonista.
	Ento, est pronta para me contar sobre tio Will... e tia Faith?  indagou Jackson. assim que Noah deixou a cozinha.
	Foi muito baixo tentar arrancar informaes do meu filho  acusou Gergia.
Por um segundo, ela pensou v^lo envergonhado. Mas a expresso foi fugaz, logo substituda por uma de determinao.
	Eu s quero sajber onde meu irmo est escondido. E farei o que for preciso para descobrir.
	Eu j disse, Jackson, no sei onde Will est. Ele se hospedou aqui por algum tempo,  verdade. Mas eles no me disseram para onde iam, propositalmente. Voc tem de acreditar e seguir seu caminho...
 Calma, por favor.  Jackson ergueu as mos.  Faith  sua irm, certo?
Ela assentiu e mordiscou o lbio inferior.
	Foi ela quem partiu com meu irmo para destino desconhecido?
Gergia confirmou.
	Por que Noah chama meu irmo de tio Will?  questionou Jackson, mas nem aguardou a resposta.  Will se casou com a sua irm?  O tom dele expressava choque e espanto.
	Bem... eles s estavam noivos quando vieram nos visitar... mas provavelmente j esto casados agora  explicou Gergia. Pronto, contara.
Devagar, Jackson tomou uma expresso de raiva. Ela o viu cerrando os punhos ao encar-la do outro lado da mesa.
	Ontem  noite, voc me fez acreditar que voc e Will... Voc discutiu comigo sobre se casar com ele!
	Eu nunca afirmei estar romanticamente envolvida com Will  esclareceu Gergia.  Se puxar pela memria, ir se lembrar de que eu disse abertamente que no tinha inteno de me casar com seu irmo. Apenas afirmei que ele era um adulto maduro e inteligente, com direito de se casar com quem quisesse.
	Ou seja, com sua irm  finalizou ele, colrico.
	Exatamente.
	Voc me enganou, Gergia Price!  vociferou ele.  Voc, meu irmo e sua irm Faith. Vocs trs me enganaram para que eu viesse para este fim de mundo, durante uma tempestade de propores picas, devo acrescentar! Quando a verdadeira ao se passava em outro lugar, talvez a milhares de quilmetros daqui. Que esperteza. Quanta esperteza. Aposto que esto muito orgulhosos. Aposto que esto rindo.da minha cara, no ?
Gergia engoliu em seco.
	Em absoluto. No estava tripudiando, se  o que pensa. Estou sinceramente aliviada por voc ter descoberto a verdade.
	Somos dois!
A chuva batia na janela da cozinha, ecoando a raiva dele. Gergia ergueu o pires e a xcara com mos trmulas. Rapidamente, pousou a loua na mesa.
No disse mais nada. Era melhor deix-lo acalmar-se. S desejava que ele no derrubasse a casa, nesse nterim.
	Meu irmo devia saber que eu estava de olho...  analisava Jackson, o olhar perdido num ponto distante, ruminando as palavras.  Vocs dois perambularam pela cidade por semanas a fio, agindo como um casal apaixonado. At mandaram imprimir um anncio no jornal local, informando que se casariam hoje!
Will contara outra histria. Ao confidenciar ao irmo que conhecera uma mulher maravilhosa e se acreditava apaixonado, Jackson comeara a especular e ele ficara preocupado. Sabia que o irmo mais velho dominador contrataria um investigador particular, que levantaria todas as informaes sobre a mulher em questo. J acontecera antes. E Jackson sempre considerava as namoradas de Will indignas de se tornarem uma Bradshaw. s vezes, ele oferecia dinheiro  pretendente, para que desaparecesse, assim como o pai fizera com seu grande amor. Precavido, Will planejou tudo de modo a despistar Jackson. O padro no mais se repetiria. No com Faith.
Montaram o grande esquema, incluindo o anncio no jornal. Um pedao de queijo na armadilha, tentador demais para Jackson resistir, pensara Will. E acertara.
	Oh, o anncio.  Gergia fitou o cho e passou a mo nos cabelos. Os fios se? encrespavam ao secar, e devia estar horrvel.  Na verdade, foi ideia de Will.
	Mas voc concordou.
	Concordei.
Sim, ela o enganara. Mas agora que Will tinha razo. O esquema fora necessrio para proteger Will e Faith e evitar que Jackson arruinasse os planos do casal apaixonado. Mas como explicaria isso a Jackson, que mais parecia um touro levado a ferros?
	Oua, eles me procuraram... me imploraram, na verdade... para ajud-los. Queriam se casar. Sem nenhuma interferncia. Era um direito deles.
	E eu tenho responsabilidade em relao a meu irmo  rebateu Jackson, frio.  Voc no o conhece. Ele  o tpico professor distrado. Pode ser um gnio... mas no sabe nada sobre mulheres. Basta uma mulher bonita sorrir e ele se apaixona  exagerou, transtornado.  Um encontro e ele a pede em casamento! No faz ideia de quantas vezes j salvei o pescoo dele de mulheres interesseiras.
	Minha irm no  interesseira  assegurou Gergia.
	Claro que a defende.
	No  possvel que seu irmo tenha conhecido a pessoa certa? Uma boa pessoa de verdade? Seu irmo e minha irm esto muito apaixonados. Qualquer um que os veja percebe.
Jackson desviou o olhar... tentando se controlar, esperava ela. Com o silncio, Gergia encorajou-se a falar mais em defesa de Will e Faith.
	Devia v-los juntos. So um casal perfeito. Faith  fotgrafa de vida selvagem, uma pessoa extraordinria, de verdade.  bonita, talentosa, encantadora  descreveu.  Honestamente, eu achava que Faith nunca encontraria algum que combinasse com ela. Sempre foi to... pouco convencional. Ento, Will apareceu. Conhece o ditado: "h uma tampa para cada panela". Mesmo para uma amassada  completou, e riu.
	Nunca ouvi isso  resmungou Jackson, uma pilha de nervos.  Deve ser a gota local de sabedoria.
Gergia ignorou o tom de desprezo e continuou:
	Bem, eles se conheceram durante algum estudo sobre migrao de pssaros, acho. Faith foi contratada pela universidade para tirar fotografias. Foi amor  primeira vista, segundo contaram. No poderiam ser mais felizes do que numa floresta, admirando pica-paus de barriga amarela pelo resto da vida...
Jackson olhou-a glido.
	S h um pica-pau nessa histria e  o meu irmo. Amor  primeira vista  repetiu, desgostoso.   primeira vista da conta bancria dele, sem dvida.
Gergia enrijeceu-se, ofendida. Como ele ousava acusar sua irm, a quem nem conhecia! No havia como convenc-lo. O homem era paranico. S porque ele tivera uma experincia infeliz no passado, achava que todas as mulheres no mundo eram traioeiras, mercenrias e desonestas.
Ora, sua irm no se importava nem um pouco com dinheiro. Faith era a pessoa menos materialista que conhecia. Desde que tivesse uma cmera fotogrfica com filme, ela ficaria satisfeita em morar numa barraca, com nada alm do mnimo necessrio.
	No vou permitir que fale da minha irm desse jeito! Mais uma palavra e o expulso daqui! Pouco me importa que se afogue l fora!
Ele meneou a cabea. Estaria desistindo? Gergia esperava que sim.
	Ento, eles esto casados a esta altura, foi o que disse?
	Esse era o plano.
	E voc no faz ideia de para onde eles foram? No pode nem arriscar um palpite?
Se ele perguntasse mais uma vez, Gergia o agrediria.
	No fao a mnima ideia!  rugiu, com dentes cerrados.
Jackson a encarou por um longo tempo, os olhos semelhantes a lagos escuros e brilhantes. Ela recordou como aqueles lbios contrados podiam ser quentes e macios. Lembrava-se bem demais.
Por que ele tinha de ser to teimoso... e to atraente... tudo ao mesmo tempo?
	Talvez a universidade onde Will leciona saiba  murmurou Jackson, planejando os prximos passos.
	Duvido. Seu irmo estava determinado a levar o plano a cabo.
	Escondendo tudo de mim.
Gergia no respondeu. Cruzou os braos. Nunca desista, devia ser o lema dele. Era to intenso... o homem mais intenso e emocional que ela j conhecera. Por um instante, imaginou se aquelas mesmas caractersticas se manifestavam em Jackson Bradshaw como amante. Se o beijo que partilharam na noite anterior era indicao, a resposta era afirmativa.
No que lhe importasse. Agora que Jackson sabia a verdade, ele iria embora depressa, esperava ela, rastreando os recm-casados como um co de caa, ou de volta a sua vida luxuosa em Nova York. Podiam se passar anos at que se encontrassem novamente, apesar da ligao familiar. Por algum motivo estranho, no apreciava a ideia. Nunca conhecera um homem que a afetara tanto em to pouco tempo. Mesmo assim, ao fitar os cabelos castanho-escuros de Jackson enquanto ele meditava sobre a prxima ao, sentiu algo estranho no corao.
Sempre protetora da irm mais nova, embora j fossem adultas, Gergia entendia o empenho de Jackson em poupar o irmo de decepes amorosas. Ele s desejava a felicidade do irmo, claro. Mas tinha que entender que no podia tomar uma deciso dessa natureza no lugar de Will. Se o casamento estivesse fadado ao fracasso, no que ela no acreditava, o tempo revelaria, e o casal teria de enfrentar as consequncias sozinhos.
	Jackson?  chamou Noah, l de cima.  Voc no vem? J limpei todas as gaiolas.
Jackson ergueu a cabea. Gergia imaginou que ele tentaria se esquivar do compromisso, por isso se surpreendeu com a resposta amigvel.
	J estou indo, Noah.  Levantou-se e penteou os cabelos com os dedos.  Vou ver os bichinhos de Noah  avisou.
	No precisa fazer isso. Quero dizer... se no tem vontade. Noah entender.
	Eu prometi  lembrou Jackson, a caminho da porta.  Alm disso, nunca vi um hamster de trs pernas chamado Harry. Estou curioso.
Gergia aquiesceu.
	Quer que eu d telefonemas para voc?
	Eu farei os telefonemas depois, obrigado.
Ele saiu da cozinha de ombros retos e queixo erguido. Parecia abatido, mas no derrotado, concluiu Gergia, limpando a mesa.
Talvez Will tivesse acertado quanto ao irmo mais velho. Jackson era temperamental... mas no to ruim, quando se conhecia melhor.
CAPTULO III

Gergia trabalhou na varanda protegida por tela durante o resto do dia. Prxima da cozinha, no deixou de ouvir as conversas de Jackson com todas as locadoras de automveis constantes na lista telefnica. Ele bajulou e at tentou subornar os atendentes. De nada adiantou. No havia nenhum carro com trao nas quatro rodas disponvel naquele momento em todo o Texas!
Rico e desesperado, Jackson chegou a telefonar para uma concessionria, tentando comprar um automvel novo para entrega em Sweetwater, porm informaram que no havia como atenderem ao pedido enquanto a chuva no cessasse, pois as estradas estavam todas bloqueadas. Frentico, ele abordava agora as empresas de nibus. Queria alugar, ou mesmo comprar um veculo grande e potente, para sair daquele fim de mundo? O homem era poderoso, Gergia tinha de reconhecer!
Enquanto Jackson dava seus telefonemas, Gergia se empenhava em restaurar uma cadeira de baile, de mogno, linda. Noah estava na sala, lendo um grosso volume sobre pinguins, presente de Will e Faith.
A certa altura, ouviu os passos pesados de Jackson na varanda.
 A empresa de nibus disse que voltar a fazer a linha esta noite. Uma unidade dever passar por Sweetwater, a caminho de Dlias, por volta das sete horas. Poderia me lavar at a cidade a tempo de peg-lo?
Gergia considerou o pedido... um tanto impossvel... e ento, considerou seus prprios recursos... definitivamente lamentveis. Jackson devia estar mesmo desesperado, para considerar embarcar num nibus! Jackson Bradshaw j tomara nibus alguma vez na vida? Duvidava.
	Bem, podemos tentar  retrucou, cautelosa.
	Que carro voc tem?
	Uma caminhonete.
Ele se animou.
	timo.
	No fique to entusiasmado, Jackson. A caminhonete j tem doze anos, quase duzentos mil quilmetros rodados, trs pneus carecas e a trao no  l uma maravilha.
O motor ficava melindroso com tempo mido e podia nem pegar. Mas Gergia no contou essa parte.
	Eu devia ter adivinhado.  Jackson levou as mos aos quadris.  Acha que no vamos conseguir, no ?
	No custa tentar.  Gergia limpou as mos num trapo e comeou a reunir as ferramentas.  No h muito o que fazer hoje, e estou cansada de ficar dentro de casa.
Ele massageou a nuca.
	Considerando tudo, voc  perfeita, Gergia Price  concedeu, magnnimo.
Ela sorriu e se regozijou sob o olhar de admirao dele por um segundo. Bastou para elevar sua temperatura.
	Considerando tudo... obrigada pelo elogio.
Pareciam um trio de bobos, pensou Gergia, enquanto corriam para a caminhonete usando cada pedao de roupa  prova de gua que ela encontrara. O vento diminura, mas a chuva continuava caindo, apesar da previso de melhoria parcial.
No caminho, ela atolou as botas na lama e interpretou o incidente como mau pressgio. Mesmo que chegassem  cidade, seria um milagre se o tal nibus passasse mesmo. Jackson achara seu sof desconfortvel, mas ainda no experimentara o banco da lanchonete. E a lanchonete no ficava aberta a noite inteira. Jackson provavelmente acabaria dormindo na delegacia, na cela. Ora, l havia um catre confortvel...
Bem, no havia como det-lo. Jackson parecia louco para deixar Sweetwater, e Gergia esperava que ele conseguisse. Quanto menos proximidade, melhor. Ento, por que se sentia to desconsolada com a partida dele? Devia estar melanclica, por conta daquela chuva incessante a prenunciar mais um dia trancada em casa, com nada a fazer exceto jogar "Voc Sabe?" com Noah... e perder vergonhosamente para o menino de oito anos.
Noah era o nico que parecia contente com a aventura. Correndo na frente, pisava nas poas espalhando lama para todos os lados. Gergia duvidava de que o motor pegaria com aquele tempo, quanto mais lev-los a algum lugar.
Mas Jackson seguia inabalvel. Se a fora de vontade contasse, chegariam  cidade. Obviamente, ele no lamentava deix-la. A percepo a atingiu como uma balde de gua gelada.
	Subam, rapazes!  gritou, para fazer-se ouvir sob a chuva, enquanto destrancava a porta do motorista.  Noah, voc vai no meio.
Assim que entraram e fecharam as portas, Gergia girou a chave na ignio e cruzou os dedos. O motor arranhou, arranhou e pegou!
	At agora, tudo bem.  Ela olhou rapidamente para Jackson. Ele parecia mais ansioso com a perspectiva de sair com a caminhonete do que poucas horas antes, quando enfrentava a possibilidade de no conseguir carona at a cidade.
	Quantos anos disse que tem a caminhonete?  indagou ele, por sobre a cabea de Noah.
	Muitos. Mas no vamos pensar nisso agora.  Gergia engatou a primeira marcha. As rodas patinaram e, ento, milagrosamente, conseguiram se desatolar, e o veculo avanou pela estradinha precria. Os trs pulavam alto no banco ao passar por poas que eram verdadeiras crateras, quase sem enxergar, devido  lama no pra-brisa. Jackson bateu a cabea no teto e agarrou-se ao painel.
	a!  exclamou ele, como se estivesse sobre um cavalo xucro.  Gostaria de chegar l inteiro, se no se importa.
	Para voc, basta chegar, no? Se eu for mais devagar, podemos ficar atolados.
Gergia no tirou o p do acelerador.
Se havia algo que a irritava era um co-piloto.
	Acho que mame tem razo  acrescentou Noah, tranquilo.  H certos princpios de gravidade e momento a considerar. Um corpo em movimento continuar em movimento...
Jackson fitou o menino.
	S estou preocupado em manter este corpo longe do pronto-socorro.  Refletiu por um segundo e sugeriu:  Talvez eu deva ir dirigindo.
	Por qu? Porque  homem? No seja ridculo  desdenhou Gergia.
A caminhonete passou por uma poa maior e ela segurou o volante com fora. Os trs prenderam a respirao, rezando para chegar ao outro lado. Mais lama cobriu o pra-brisa e as laterais da caminhonete. Por um segundo, a caminhonete flutuou no ar. Ento, aterrissaram.
	Talvez no tenha sido uma boa ideia afinal  resmungou Jackson, enquanto pegavam a estrada local.  Talvez seja melhor voltarmos e esperarmos o tempo melhorar.
	Boa hora para mudar de ideia  esbravejou Gergia.  Reclamou a manh toda para ir embora, no foi?
Ele era muito atrevido mesmo, voltando atrs quela altura do campeonato. O que pensava que ela era? Sua motorista particular?
	S estou pensando na nossa segurana  argumentou ele.  Na de todo mundo. No imaginava que a estrada estivesse to ruim.
Gergia estava farta. J era difcil dirigir naquelas condies sem os comentrios de Jackson, que prosseguia:
 preciso pensar em Noah. O que far na volta, se a chuva no parar? Voc pode atolar em algum lugar.
A considerao pelo bem-estar de seu filho a teria comovido, se no estivesse to zangada com o homem. Pensando bem, Jackson tinha razo. Por que tinha de se arriscar para ajud-lo? Ele entrara em sua vida como um tornado havia menos de vinte e quatro horas e s lhe trouxera problemas. Alm de um beijo arrebatador, acrescentou. Mas este mal compensara o resto.
	timo, se quer voltar, a vamos ns...  Ela girou o volante perigosamente para dar meia-volta. A caminhonete derrapou, mas ficou na posio certa.
	Sinto alvio por voc ter tomado a atitude sensata. Quer tomar um banho, quer? Podemos sair e trocar de lugar.
	No vamos trocar de lugar  respondeu Gergia, com dentes cerrados. Morara no campo por boa parte de sua vida e dirigira em estradas rurais bem piores do que aquela.
Haviam percorrido poucos metros quando o motor passou a emitir um barulho estranho.
	O que  isso? t indagou Jackson.
Gergia no sabia. Pisou no acelerador, mas nada aconteceu. Freando, parou no acostamento... mas os pneus carecas escorregaram e o veculo atolou num lamaal.
	Maldio!  praguejou Gergia, batendo no volante.
	O que foi?  indagou Jackson.  Ficou sem gasolina?
	Pior. Acho que a fiao molhou. Deve ter sido aquela ltima poa.  Ela suspirou.  Acho que consigo dar um jeito. Vou sair e dar uma olhada.
Gergia destravou o cinto de segurana e abriu a porta.
	Eu ajudo.  Jackson saltou pela outra porta e a ajudou a erguer o pesado capo.
Gergia sabia que no havia conserto para a fiao molhada, a no ser esperar secar, mas tinha que tentar. Enxugou as conexes com um pano e verificou se todos os fios estavam bem ligados  bateria.
	Como sabe tanto sobre motores?  indagou Jackson, curioso, o rosto quase encostado no dela.
Gergia distraiu-se momentaneamente, admirando as gotas de chuva escorrendo pelo rosto de Jackson. Os clios castanho-escuros estavam encharcados e os olhos pareciam ainda maiores e profundos.
	Oh,  preciso saber um pouco disso, quando se mora longe  justificou, disfarando o embarao.
Jackson parecia incrdulo. Ela precisara adquirir muitos conhecimentos prticos para sobreviver como me solteira. Aprendera por necessidade. Mas no pretendia contar mais a ele sobre sua vida pessoal. Que ele lesse no relatrio encomendado, se estava to interessado.
	Muito bem,  s o que podemos fazer. Feche o capo, eu vou tentar dar a partida.
Ele fechou o capo e correu para a lateral do veculo. Antes de pegar a maaneta, Gergia escorregou e caiu estatelada na lama, com muita dor no tornozelo esquerdo.
Jackson chegou num segundo, enquanto Noah saltava da caminhonete.
	Gergia... voc est bem?  Jackson a segurou pelos ombros e ergueu um pouco.
Confusa e envergonhada com a queda, ela se apoiou nele. A expresso preocupada dele a fez se sentir melhor instantaneamente. Mas no bastou para aliviar a dor no tornozelo.
	Acho que torci o tornozelo...  murmurou, de cenho franzido.
Olhou para a perna esquerda, tentou estend-la e gemeu de dor.
	Calma  aconselhou Jackson, sustentando-a com firmeza.  No faa movimentos bruscos.
	Nem penso nisso.  Gergia percebeu que aterrissar numa poa grande e que lama lhe ensopava a cala jeans e a calcinha. O pior era no poder fazer nada para sair dali.
	Mame... voc est bem? No consegue se levantar?  Noah tocou de leve em seus ombros. Tinha os olhos arregalados de susto e preocupao.
	Estou bem, querido  tranquilizou ela.  Acho que no quebrei nada. Alm disso, sempre quis tomar um banho de lama. Dizem que embeleza  brincou, tentando sorrir para o filho.
	Vou endireitar sua perna, Gergia.  Jackson pegou sua bota.  Tentarei ser gentil.
Ele foi gentil. Mas ainda assim doeu bastante. Apoiada nos cotovelos, ela prendeu a respirao e fechou os olhos at ele acabar.
Quando abriu novamente os olhos, Jackson j a amparava novamente e parecia preocupado com a possibilidade de t-la machucado. Ela conteve o impulso de acariciar o rosto dele, confortando-o. O homem se mostrava esnobe e insuportvel, s vezes. Mas, no fundo, tinha bom corao.
	Talvez seja melhor irmos para um hospital  considerou ele.  Para tirar uma radiografia.
	No foi to grave  assegurou Gergia.  Acho que no est quebrado. Eu at consigo movimentar os dedos do p.  um bom sinal, no acha?
	Vamos para a caminhonete, ento  decidiu Jackson, assumindo o controle. fNoah, vou precisar da sua ajuda. Abra a porta deste lado, entre e ajude sua me a passar para l, enquanto eu empurro de c.
	Parece que esto carregando um saco de batatas  reclamou Gergia, sentada na lama.  Mas que alternativa?
Jackson agachou-se a seu lado, segurou-a pela cintura e ergueu-a como se no pesasse mais do que uma pluma. Ela se agarrou ao pescoo dele e apoiou a cabea contra o ombro slido.
Ele era mais forte do que ela imaginara. Deleitada, saboreou a sensao do toque seguro e o calor do corpo viril enquanto seus quadris se roavam.
	Muito bem, para a caminhonete agora  avisou ele, enquanto equilibravam-se juntos.
Jackson a ps de p junto  porta do veculo. Gergia se voltou para dizer qualquer coisa, mas ele a segurou pela cintura e colocou-a no banco.
Seus rostos ficaram muito prximos. Jackson estava to perto... a centmetros. Ela sentiu o tornozelo latejar e ofegou.
	Voc est bem?  indagou ele, preocupado.
	Sim. Obrigada pela ajuda.
	Foi como carregar um saco de batata doce, eu diria 	provocou ele.  Est se sentindo melhor?
	Muito.
Com Jackson empurrando e Noah puxando, ela alcanou o meio do assento. Jackson assumiu o volante.
	Cruzem os dedos  recomendou Jackson, ao girar a chave na ignio.
Gergia fez mais do que cruzar os dedos. Fechou os olhos e rezou silenciosamente. Se o dia estivesse bom e ela pudesse andar, seria apenas uma breve caminhada at a casa. Mas, com aquele tempo e a dor no tornozelo, seria uma longa jornada.
O motor arranhou Jackson praguejou. Gergia sentiu um aperto no corao.
	Vamos, funcione, bombom  incentivou ele, e tentou mais uma vez.
Apesar das circunstncias, Gergia se divertiu com a tentativa de persuaso. Segundos depois, o motor pegou, ainda que rateando.
	Bom trabalho!  cumprimentou Gergia.
	Vamos rezar para chegar em casa sem mais atropelos 	replicou Jackson.  Vou tentar me desviar de todos os buracos  prometeu, olhando para o tornozelo dela.
	Estou bem, de verdade  assegurou ela.  Foi to ridculo escorregar e cair daquele jeito... Eu devia ter sido mais cuidadosa.
	Bobagem, foi um acidente. Se algum  culpado, sou eu. Nunca devamos ter sado com esse tempo.
	No seja tolo, Jackson. Eu sabia o que estava fazendo.
Nunca o culparia por...
	Claro que no me culparia. Voc no  do tipo  interrompeu ele.  Mesmo assim, foi tudo culpa minha  insistiu.  E eu lamento muito. Espero que aceite minhas desculpas.
Gergia sabia que aquilo era o mais prximo de humildade a que Jackson Bradshaw chegaria.
Ele a fitou. De repente, ela ficou ciente da proximidade entre ambos. Estava srio e seu olhar transmitia arrependimento. Entreolharam-se por alguns segundos e ento Jackson se concentrou na estrada.
Gergia no sabia o que dizer. J declarara que no o culpava. Impulsivamente, estendeu o brao e o tocou no ombro.
	Eu s preciso de gelo e uma aspirina. Ficarei boa num piscar de olhos  assegurou, descontrada.
	No se preocupe. Pretendo cuidar de voc esta noite, Gergia.
Ele voltou a encar-la, e Gergia sentiu o corao bater mais forte. Nao sabia como nem por qu, mas Jackson exercia poder sobre ela. Ele tinha o poder de toc-la fundo.
Agora, teriam de ficar juntos por muitas horas mais. Jackson parecia resignado a pernoitar em sua casa novamente. Contente com a perspectiva, Gergia esqueceu-se comple-tamente da dor no tornozelo. Ao mesmo tempo, sentia puro terror. 
	Talvez mais tarde possamos brincar de "Teste o seu Q.I."  sugeriu Noah, esperanoso.
	Boa ideia  concordou Gergia. Geralmente, abominava o jogo, mas, naquele momento, pareceu-lhe a estratgia perfeita para manter Jackson a distncia durante a longa noite que tinham pela frente.  Esse menino  uma enciclopdia ambulante  alertou.  Ele sabe que vai nos arrasar. Acho que Noah gosta de se mostrar.
	Vocs podem combinar seus crebros, se quiserem  sugeriu Noah, condescendente.  Por mim, tudo bem.
	Est vendo?  comentou Gergia com Jackson.
	Combinar os crebros? Eu no ficaria to convencido, amigo  provocou Jackson, sorrindo.  Sou muito bom nesses jogos de perguntas e respostas.
	Mesmo? Mame diz que pessoas que sabem muitas trivialidades tm  cultura intil  respondeu o menino.
	Noah! No precisa bancar o espertinho  censurou Gergia.
Jackson apenas riu, esportivo, e ela acabou sorrindo.
	Sabe, sua me pode ter razo  concedeu Jackson, surpreendendo-a.  Vou pensar no assunto.
Jackson estacionou a caminhonete bem perto da porta dos fundos da casa. Ajudou Gergia a entrar e se instalar numa cadeira da cozinha. Depois, puxou outra cadeira, ergueu-lhe a perna com o tornozelo torcido e descalou a bota e a meia.
Os trs fitaram o tornozelo. Estava inchado de um lado e Gergia sentiu muita dor ao tentar mov-lo.
	Parece apenas um mau jeito  opinou Jackson, calando-lhe o p com uma almofada.  Claro, seria melhor tirar uma chapa, assim que possvel. S para ter certeza. Vamos colocar gelo. Acho que  o melhor a fazer, por enquanto.
Jackson abriu o congelador e comeou a extrair pedras de gelo, enquanto Noah ajudava a me a despir a parca impermevel. O suter tambm estava molhado e ela o retirou, constrangendo-se ao ver a camiseta molhada agarrada aos seios. Era... indecente, pensou. Cruzou os braos, mas no adiantou muito.
	Noah, v l em cima e pegue meu suter branco com zper, sim?
O filho correu para a escada e Jackson chegou com a bolsa de gelo, que aplicou sobre o tornozelo luxado.
	Tem algum analgsico?  indagou ele.
Gergia indicou um frasco na pia. Jackson separou dois comprimidos e os serviu num pires ao lado de um copo de gua.
O gelo no tornozelo aliviou a dor, mas deixou-a com muito frio.
A camiseta e o suti destacavam-se mais. Gergia encolheu-se com os braos cruzados. Felizmente, Jackson parecia concentrado no tornozelo.
Logo Gergia percebeu que ele a avaliava por completo. J reparara nos seios bem evidenciados, porm, cavalheiro, no detinha o olhar naquele ponto. Finalmente, encarou-a.
	Voc est ensopada. Devia tirar essas roupas logo e tomar um banho quente.
	A banheira fica l em cima. Acho que vou usar o chuveiro mesmo.
	Vai quebrar o pescoo naquele chuveiro  advertiu Jackson.  Eu a carrego l para cima,
	De jeito nenhum  protestou Gergia.  No o conheo bem o bastante para permitir que me d banho  explicou.
Ele riu da preocupao.
	Mesmo? S para saber... quanto tempo demora para um homem ter esse privilgio?
	Muito mais tempo do que voc planeja ficar por aqui 	replicou Gergia, mordaz.
Gergia receou que ele se zangasse ante a resposta malcriada, mas Jacksan no demonstrou nada.
	Pobre Gergia  murmurou ele, afastando uma mecha de seus cabelos molhados. Voc no gosta que ningum lhe faa favores, no ?
	Pare de provocar, Jackson.
Gergia agia como se o toque dele no a perturbasse, mas, por dentro, seu corao batia descompassado. Sentiu o rosto queimar e desejou que Jackson no notasse.
	No estou provocando  declarou ele, ainda ajeitando seus cabelos.  S conversando. Acho que no est acostumada a deixar que outra pessoa cuide de voc.
	No mesmo.
	No se preocupe, ficarei de olhos fechados, como um voluntrio em um nmero de mgica, se quiser.  Ele passou os dedos por seu rosto, testando a maciez da pele.
	Sua intimidade, cara dama, ser totalmente preserva da. Eu prometo.
Gergia o encarou e percebeu que o perigo era sua prpria fora de vontade precria.
	Vou subir e preparar o banho  prontificou-se Jackson.  Vamos conseguir.
	Est bem  conformou-se ela.
Assim que ele deixou a cozinha, Gergia percebeu que agira como boba. Uma caipira. Provavelmente, Jackson ria dela. Afinal, eram adultos... e ele s tentava ajud-la. No se tratava de um adolescente querendo dar uma boa olhada na anatomia feminina. Por que seria irresistvel a um homem como ele?
Tinha certeza de que, em Manhattan, ele dispunha de legies de mulheres a seus ps. Mulheres elegantes, gla-mourosas, bem-cuidadas, que combinavam com seu estilo de vida, assim como os sapatos sob medida italianos e os ternos de seda. Jackson Bradshaw tinha tudo... era bem-sucedido, bonito, inteligente e, segundo Faith, extremamente rico. E o fato de ele a ter beijado na noite anterior no significava que fosse livre e desimpedido. Ele podia ter algum relacionamento srio.
Era mesmo ridculo pensar que um homem como Jackson pudesse estar interessado em uma mulher como ela. Claro, ele a cobria de atenes naquele momento, mas porque se sentia culpado e responsvel pelo incidente. At no declarara isso? A prolongada falta de companhia masculina fazia sua imaginao... e emoes... correrem soltas.
	Era esse o que voc queria, mame?  Noah finalmente retornava com o suter. Antes tarde do que nunca.
Gergia vestiu a pea rapidamente, ouvindo Jackson descer a escada.
Ansiosa, enquanto ele a carregava para o primeiro andar, pediu a ele que levasse uma cadeira para o banheiro, para que pudesse entrar e sair da banheira sem ajuda.
Mesmo assim, no foi um banho relaxante, pois Jackson insistiu em ficar no corredor, perto da porta destrancada, para o caso de ela precisar de ajuda. Passou nervosa todo o tempo de imerso, contando s com a espuma para se cobrir.
	Gergia? Voc est bem?  chamou ele, aps algum tempo sem ouvir rudo no banheiro.
	S estou mergulhando em minhas fantasias  murmurou ela, sonhadora.  Por exemplo, adoraria que voc esfregasse a esponja nas minhas costas, Jackson... aposto que essas mos fortes fazem uma massagem excelente...
	O que disse?  indagou ele, alto.  No ouvi... Voc est bem?
Gergia ouviu a maaneta girar. Ele no entrara, entrara? Empertigou-se na banheira, espalhando gua para todos os lados.
	Estou tima!  gritou.  Sairei num minuto.
	Cuidado ao sair. Talvez eu deva entrar e ajudar...  ofereceu-se Jackson, preocupado.
"Mais ajuda e precisarei de um banho frio", pensou ela.
	No... por favor.
Foi um feito acrobtico, mas Gergia conseguiu se pr de p, sair da banheira e se apoiar na cadeira. Infelizmente, no processo, derrubou uma saboneteira e um porta-escovas.
	Eu vou entrar!  alertou Jackson.
Gergia mal teve tempo de agarrar uma toalha e se cobrir precariamente. Encarou-o, equilibrando-se numa perna, a mo livre apoiada na cadeira, uma toalha junto ao peito.
	Jackson... por favor! Eu estou bem. S derrubei uns objetos...
Parado junto  porta, ele alterava a expresso de preocupao para divertimento. Rindo  custa dela!
	Qual  a graa?
	No posso evitar... Voc parece um flamingo rosado! 	explicou ele.
	Voc prometeu que fecharia os olhos  acusou ela. 	Ou usaria alguma venda.
	Oh, est bem.  Jackson fechou os olhos.  Est melhor assim?
	Um pouco  suspirou ela. Ele podia ir embora, certo?
Mas, em vez de sair, para espanto de Gergia, Jackson aproximou-se de olhos fechados.
	O que est fazendo?
	Vou ajud-la a chegar  cadeira, para que no quebre o seu lindo pescoo... e outras partes atraentes de sua anatomia, Gergia  informou, paciente.  Voc me avisa se eu estiver a ponto de cair na banheira?
	No aviso! - retrucou ela. Tentou se sentar sozinha, mas ele tinha razo. No conseguia sequer encostar no cho o p com o tornozelo luxado.
	Diga quando eu estiver ficando quente, Gergia  provocou Jackson.
Ela se esquentava mais a cada segundo. Mas, claro, morreria sem admitir isso.
	Voc  impossvel  censurou ela, e desistiu. Quando ficaram frente a frente, a centmetros de distncia, estendeu o brao e se apoiou nele.  Muito bem, pare bem a. J est bom.
	Segure-se nos meus ombros e eu a ajudarei a se sentar.
	Est bem  murmurou ela.  D-me um segundo.
Gergia no sabia como seguraria a toalha e se apoiaria nos ombros dele ao mesmo tempo, frendeu a toalha junto aos seios e rezou para que ela no casse.
	Pronta?
	Fique de olhos fechados  advertiu Gergia, jogando todo o peso do corpo nos ombros dele. Sentiu as mos fortes em torno da cintura e, sem querer, apoiou-se no p ruim e sentiu uma dor aguda, mas no emitiu nenhum som.
	Apie-se em mim, Gergia  instrua Jackson, sempre de olhos fechados.  Estou amparando voc. Est tudo bem.
Ela se apoiou nele. Como era muito mais alto, acabou com o rosto colado ao trax poderoso. Jackson inclinou o rosto e sorveu o perfume do xampu em seus cabelos.
	Hum, voc cheira bem...  murmurou, lascivo.
	Deve ser o xampu  respondeu ela, fria.
 Acho que  voc, Gergia  sussurrou Jackson, insinuante, em seu ouvido.   to quente, macia e... doce. Roou os lbios no rosto dela e, ento, na boca.  No consigo resistir... mas vou manter os olhos fechados  prometeu.
	Eu tambm...  Gergia fechou os olhos e ergueu o rosto para receber o beijo.
Foi um beijo diferente do primeiro. Jackson a provocava com vagar, de um jeito doce e persuasivo. Gergia se sentia celebrada, desejada... bonita.
	Sei que prometi me comportar... mas ao ver voc de toalha, fiquei maluco  confessou ele, mordiscando seu lbio inferior.
	Acho que eu, tambm...  confessou ela.
Jackson retomou o beijo e Gergia sentiu a ereo dele junto  coxa. Com to pouco a separ-los, era como se nada os impedisse de fazer amor ali no banheiro.
Exceto a presena de Noah na cozinha, recordou ela, vagamente. Incumbira o filho de pr a mesa e vigiar a lasanha congelada que esquentava no forno.
	Jackson... por favor...  Interrompeu o beijo e se desvencilhou.
	Gergia... espere? O que est fazendo?  Ele abriu os olhos e a segurou, pois ela continuava meio desequilibrada.
Gergia agarrou-se  cadeira.
	Estou bem  afirmou.  Agora, por favor, v.
Ele suspirou e se conformou.
	Est bem, se insiste.  Ele fechou os olhos teatralmente e puxou-lhe a toalha, expondo os seios.  Cuidado ou vai se resfriar.
Gergia agarrou de novo a toalha e a apertou junto ao peito. Jackson saiu fechando a porta. Ela finalmente se sentou na cadeira, extremamente constrangida.

CAPITULO IV

Gergia sentia-se grata pela presena alegre de Noah  mesa de jantar. Aps o incidente no banheiro, no poderia enfrentar Jackson sozinha. Em pose distante e educada, evitava encar-lo.
Se Jackson pensava no recente encontro romntico, no o demonstrava. Conversava animadamente com Noah sobre beisebol, o menino explicando a fsica envolvida no lanamento da bola. Jackson ouvia com interesse, enquanto saboreava a lasanha, elogiando a habilidade culinria de Gergia.
Ela no se deixou convencer, cnscia de que o homem devia jantar com frequncia nos restaurantes mais requintados do mundo. Jackson s estava sendo educado. Ou tentava amans-la, aps t-la agarrado no banheiro quando prometera que no o faria.
No que ele fosse o nico culpado, reconhecia ela. No instante do beijo, ela no tentara recha-lo propriamente. Por algum motivo misterioso, mostrava-se vulnervel a Jackson Bradshaw. Meneou a cabea para afastar a lembrana incmoda e tentou se concentrar na conversa  mesa.
Aps lavarem a loua, Noah lembrou aos adultos que haviam lhe prometido uma partida de "Teste o seu Q.I.". Gergia imaginou se Jackson desconversaria, indisposto a se entreter com jogos infantis. Ao contrrio, porm, ele parecia ansioso pelo confronto, e Noah, entusiasmado, correu  sala para arrumar o jogo.
Gergia instalou-se na cadeira de balano, disposta a jogar individualmente, mas Jackson insistiu para que se unisse a ele contra o geniozinho.
	S serei um peso para voc  alertou ela.  Sou pssima nesse jogo.
	No se preocupe. Eu carrego o fardo  prontificou-se Jackson.
Minutos depois, ficava claro que Noah tinha vantagem absoluta sobre os adultos... apesar da combinao de crebros. Jackson passou de confiante e descontrado a muito concentrado, buscando na memria as respostas para as trivialidades.
Embora no fosse nenhuma campe de cultura intil, o que nunca pretendera ser, Gergia surpreendeu a todos lembrando curiosidades, como a altura do monte McKinley, a palavra latina para cachorro e o nome da esposa do presidente Warren Harding.
	Como sabe isso?  indagou Jackson, atnito.
Gergia deu de ombros.
	S temos trs canais de televiso aqui... e dois so educativos.
Finalmente, o jogo acabou. Noah foi o vencedor por larga margem. Jackson meneou a cabea.
	Bom trabalho, Noah. Merece um prmio pelo desempenho impressionante. Quando voltar para Nova York, eu lhe mandarei uma surpresa.
	Uma surpresa? De verdade, Jackson?
Gergia desaprovou a iniciativa.
	No  necessrio, Jackson. Foi s um jogo infantil.
Mas eu quero  insistiu Jackson. Levantou-se e passou a mo nos cabelos do menino.  No imaginava que este baixinho me venceria, mas ele conseguiu. De lavada. Agora, merece recompensa.
Noah sorriu. Gergia mordiscou o lbio para no se intrometer. Evidentemente, tratava-se de "coisa de rapazes". Seu filho raramente tinha com quem interagir, e optou por ser condescendente.
Alm disso, quando chegasse a Nova York, Jackson provavelmente j teria se esquecido da promessa e deles tambm, bem como daquele lugarejo no fim do mundo.
	Hora de dormir, campeo  anunciou Gergia.
	Est bem  concordou a criana. Gergia espantou-se com a obedincia. Noah arrumou o jogo e deu-lhe um beijo de boa-noite.  Boa noite, Jackson!
Jackson retribuiu e o menino subiu para o quarto, deixando Gergia apreensiva, sozinha com o hspede.
	Estou cansada tambm  anunciou, preparando-se para deixar o sof, tarefa difcil agora.  Acho que vou dormir.
Jackson parecia surpreso.
	So apenas... nove horas  protestou, olhando para o relgio.  Pensei que pudssemos conversar um pouco.
	Conversar?  Gergia sentiu um frio no estmago e desejou no ter consumido um segundo pedao de bolo na sobremesa.  Sobre o qu?
	Sobre voc, por exemplo. Como vai conseguir se arranjar sozinha? At seu tornozelo melhorar, quero dizer.
Ela riu.
	Como sempre, acho.
	No seja tola, Gergia. Sabe do que estou falando.
Mal consegue ficar em p, no pode dirigir nem cozinhar ou mesmo ir de um quarto a outro.
	S torci o tornozelo, Jackson. No fiquei invlida.
	Claro que no. Mas sabe o que quero dizer. Precisa de ajuda aqui, pelo menos por alguns dias.
Jackson estava preocupado com ela, Gergia percebeu, emocionada. Fato intrigante, considerando que o homem no imaginava a ginstica financeira que ela fazia para sobreviver. Arrastar-se pela escada no era nada comparado a situaes que j enfrentara.
	No se preocupe. Eu me arranjo.
	Estou preocupado. E isso no  resposta.  Srio, Jackson mantinha-se de braos cruzados, dando a entender que no a liberaria enquanto ela no respondesse direito. 
	Oua, sei que se sente responsvel pelo incidente. Mas, j disse, no foi culpa sua. No precisa se preocupar com Noah e comigo. J passamos por situaes piores antes, pode crer.
	Acredito  retrucou ele, e passou a mo nos cabelos.  Mas fico preocupado mesmo assim.
	Tenho muitos amigos por aqui, Jackson. Se precisar de ajuda, s tenho de telefonar  tranquilizou ela.
	Ouvi voc ao telefone, Gergia. Explicou sua situao aos amigos, mas nenhum pde ajudar.
Gergia enrubesceu por ser flagrada numa mentira, ainda que bem-intencionada.
	Oh... voc ouviu minhas conversas particulares?
	No pude evitar. Alm disso, sabia que voc agiria como se tudo estivesse bem, mesmo que no fosse o caso.
Com os telefonemas antes do jantar, Gergia descobrira que os amigos estavam todos fora da cidade ou indisponveis. Sua melhor amiga, Maria Nunez, poderia at abrir a loja, mas com cinco crianas para cuidar e a me no hospital, no poderia ficar l atendendo aos clientes.
	Falta ligar para uns conhecidos. Algum poder ajudar, com certeza.
	Tenho uma proposta  declarou Jackson, aproximando-se. Sentou-se no sof, e Gergia quis sair de perto, mas seu tornozelo no permitia movimentos rpidos.
	Que tipo de acordo?
	Se conseguir algum para vir ajud-la, eu vou embora.
Mas algum que ajude de verdade, no apenas traga um pacote de mantimentos, fique cinco minutos e v embora. Se no conseguir, eu prolongo a estadia e ajudo vocs dois.
Jackson queria continuar ali para cuidar dela? Ora, chegara havia menos de vinte e quatro horas e ela j sentia como se sua vida... sua paz de esprito... tivesse sido virada de ponta-cabea.
	Por que est olhando para mim desse jeito, Gergia? Acha que no consigo fazer o que for preciso por aqui?
	No... no  isso.  Ela se afligia com o calor do brao dele no encosto do sof, as suas costas, a centmetros de toc-la.
	No precisa ficar aqui s porque se sente culpado.
	J me disse isso. No vou ficar s porque me sinto culpado, est bem?
O olhar sincero dele a perturbava, assim como os grandes olhos castanhos continuavam a excit-la. Tentou sufocar a atrao. Ainda no confiava naquele homem.
	E sua vida l em Nova York? Como pode ficar tanto tempo longe do escritrio?
	O negcio no vai ruir sem mim, por mais que eu deteste admitir.  Jackson sorriu.  Alm disso, assim que chegar ao meu carro, terei tudo para ficar em contato com o escritrio... telefone celular, microcomputador porttil, modem para pegar os e-mails.
	Claro. Eu devia saber.  Gergia devia saber que um homem sofisticado como Jackson Bradshaw vinha completo, com todas as bugigangas tecnolgicas. Que tolice imaginar que ele seria capaz de se isolar num fim de mundo como Sweetwater.
	Sim, devia  replicou ele, com um sorriso sexy. Ajeitou uma almofada na mesinha de centFO e ergueu sua perna com o tornozelo machucado.
	O que est fazendo?  indagou ela, alarmada ao sentir o toque na pele nua. Vestira uma saia longa e camiseta, porque lhe pareceu mais fcil do que colocar uma cala. Felizmente, depilara as pernas na banheira!
	Deve manter o tornozelo elevado, para no inchar ainda mais.  Jackson mantinha as duas mos em sua canela.
 Do jeito que est, devemos ir ao mdico amanh cedo e tirar um raio-X.
	Detesto ir ao mdico  teimou Gergia.
Jackson riu.
	Eu imaginava.  Continuou massageando-lhe a perna.
Gergia acabou relaxando com a sensao reconfortante.  Eu pago a conta, no se preocupe  acrescentou ele.
Gergia empertigou-se, tensa com o comentrio, e afastou a mo dele.
	No precisa  dispensou, embora seu plano de sade no fosse completo e no tivesse reserva financeira para esse tipo de imprevisto.
	Veremos.  Jackson recostou-se, atento a seu semblante.  Sabe, ouvi dizer que, s vezes, as pessoas surgem na vida das outras por um propsito... ensinar-lhes uma lio.
Gergia desdenhou.
	No me diga que entrou na minha vida para me ensinar a no abrir a porta para estranhos no meio da noite.
Ele riu ao reconhecer a descrio do modo como chegara ali.
	No, em absoluto. Acho que estou aqui para ensin-la a aceitar ajuda com um pouco mais de... graa.
Ela franziu o cenho e cruzou os braos. Chegara a pensar que ele diria algo mais romntico. Que tolice.
	E o que eu devia lhe ensinar, Jackson?
Ele deu de ombros.
	Talvez, que eu deva aprender a no tirar concluses precipitadas sobre as pessoas... ou algo assim.
Fascinado com uma mecha de cabelos rebelde na testa dela, ele a afastou com um dedo.
Gergia engoliu em seco e desviou o olhar.
	Bem, Noah ficar feliz em saber que voc permanecer mais tempo  considerou, tentando manter a conversa descontrada.
	Ele  um garoto e tanto  avaliou Jackson, sincero.
	Obrigada.  Gergia sorriu.  Tambm acho.
	Fale-me sobre ele.  Jackson relaxou e instalou-se mais confortavelmente no sof, mantendo o brao em torno dos ombros dela.
	O que quer saber?
	Tudo. Deve ser difcil cri-lo sozinha.
	No  fcil  admitiu Gergia, cruzando as mos no colo. Olhou-o de soslaio, mas voltou a concentrar sua ateno no tornozelo.  Mas voc j sabe disso, deve estar no relatrio do seu investigador particular. Provavelmente, sabe at onde, em que data e com que peso meu filho nasceu. O que mais deseja?
Jackson refletiu sobre a acusao.
	Acho que agi mal  admitiu, finalmente. Gergia sentiu uma carcia no ombro, dispersando a irritao que sentia por ele.  Sim, disponho dos fatos bsicos, mas gostaria que voc me contasse detalhes. De acordo com o relatrio, voc saiu de casa aos dezessete anos. Por qu?
Era difcil explicar, mesmo aps tantos anos. Ainda mais a um homem como Jackson, algum que sempre vivera na abundncia. Por que lhe daria satisfao da sua vida? No lhe devia nenhuma explicao sobre suas escolhas. Ao fit-lo, porm, desarmou-se. Jackson parecia genuinamente interessado. Remexeu as mos enquanto elaborava a resposta.
	Meu pai me expulsou quando descobriu que eu estava grvida.
Jackson reagiu atnito.
	Ele a expulsou de casa?
Gergia suspirou.
	Era um homem muito rgido, preocupado com as aparncias e com o que os outros diziam. Meu pai era advogado na cidade, sabe, e achava que nossa famlia tinha de se comportar acima de qualquer censura. At quando minha me morreu, ele nos proibiu de chorar no funeral.
Jackson mostrou-se chocado mais uma vez.
	Quantos anos tinha quando sua me morreu?
	Eu tinha dez e Faith, oito. De qualquer forma, aps a perda de mame, papai ficou zangado com o mundo. Ainda tinha a mim e Faith, porm afastou-se de ns, talvez porque o lembrssemos dela... no sei.  Fez pausa, pensativa:  Bem, quando descobri estar grvida, fiquei com medo de contar. Mas foi inevitvel... e me preparei para a reao dele.
	Ele ficou zangado?
	Sim, muito... nem sei se zangado  o melhor termo para descrev-lo.  Gergia meneou a cabea, como se quisesse dispersar as lembranas amargas.  Ele no ouviu minhas explicaes, no se sensibilizou com lgrimas ou pedidos de perdo.
	Ele no quis saber quem era o pai? No quis conversar com o rapaz e os pais dele? No quis tentar acertar as coisas entre as duas famlias?
	Oh, ele sabia quem era o pai. Meu namorado firme, Paul Henley. Mas s culpou a mim, como se eu tivesse planejado tudo sozinha.
	E o seu namorado e a famlia dele? No a ajudaram?
	Procurei Paul, depois de falar com meu pai. Mas ele no sabia o que fazer, nem contou  famlia. Eu no tive coragem de procurar os pais deles e revelar a gravidez.
Duvido de que tivesse adiantado. Tenho certeza de que teriam apoiado a atitude do filho.
	O que ele fez?
	Ele me deu quinhentos dlares e me aconselhou a no estragar minha vida sem ao menos completar o ensino mdio.	.
	No acredito  reprovou Jackson, furioso.  E o que voc fez?
	Bem... peguei o dinheiro e sa da cidade.  Gergia raramente falava tanto sobre si mesma e no sabia por que revelava seus segredos mais pessoais a Jackson. Afinal, ele era praticamente um estranho. E receava estar aborrecendo-o com sua histria, ou, pior, parecendo uma flor frgil em busca de solidariedade.
	Mas para onde foi? Como sobreviveu durante a gravidez dispondo de apenas quinhentos dlares?
	Fui de carona at Nova Orleans. Minha me tinha uma irm, Ellen, que brigou com meu pai quando minha me morreu. Foram anos sem contato, mas eu a procurei e ela ficou feliz em me ver. Nunca se casara e vivia sozinha. Tia Ellen tinha um bom emprego e foi generosa em me abrigar at que eu pudesse me sustentar.  Gergia tomou flego. Podia contar mais. Muito mais. Mas concluiu que j falara o bastante.  No fosse tia Ellen, acho que nem eu nem Noah estaramos aqui hoje.
	Abenoada seja, onde quer que esteja  reconheceu Jackson, sincero.
	Ela se aposentou e hoje mora na Carolina do Norte  completou Gergia.  Vem me visitar uma vez por ano. E ela e Noah trocam cartas frequentemente.
	Ela parece fantstica. Eu adoraria conhec-la um dia.
	Talvez venha a conhec-la  respondeu Gergia.  Tenho certeza de que Noah lhe contar tudo sobre voc, na prxima carta.
Gergia no pensava mais naqueles dias difceis e sentiu tristeza. Mesmo com a ajuda da tia, fora uma batalha superar a gravidez e dar Noah  luz. Jackson parecia um ouvinte interessado, mas a reao verdadeira era inescrutvel.
Gergia imaginou o que ele pensava dela... de verdade... grvida aos dezessete anos e expulsa de casa. Completara o ensino mdio e conseguira o diploma atravs de programa de ensino residencial, mas no frequentara a universidade... exceto por alguns cursos noturnos, de redao e estilo, detalhe que ele devia conhecer, por conta da investigao particular. Jackson devia ter uns dez ttulos universitrios pendurados na parede, de instituies de primeira linha da Costa Leste.
Sim, a comparao simples a constrangia, mas no passado sempre dissipara a sensao com uma atitude debochada. De algum modo, a estratgia no funcionava naquele momento com Jackson. Detestava admitir, mas se importava com o que ele pensava a seu respeito. Importava-se demais.
	Gergia? Voc est bem?  Ele se achegou, e ela sentiu o toque gentil nos ombros novamente.  Desculpe-me. No imaginei que falar sobre o passado a deixaria triste.
	No... no  isso.  Ela o fitou e s se sentiu pior ante a expresso suave e preocupada.  Bem, talvez um pouco. Parece to distante agora. Eu no penso mais naquela poca.
Ele se recostou novamente.
	Pelo que disse, parece que no mantm contato com o pai de Noah.
	Avisei Paul quando Noah nasceu. Ele deixou claro que no queria saber do filho nem receber mais notcias de mim. No posso dizer que me surpreendi.
	Que cretino... para dizer o mnimo. Ora, se uma na morada como voc me dissesse que estava grvida e tivesse um menino como Noah...  Os olhos de Jackson brilharam ao imaginar a situao. Rapidamente, recomps-se.  E o seu pai, ele no se aproximou?
Gergia meneou a cabea.
	Mais ou menos. Voltamos a nos falar e fui visit-lo quando Noah tinha uns dois anos. Mas ele nunca me perdoou.  Respirou fundo.  Poucos meses depois, ele morreu de ataque cardaco. Acho que foi um consolo termos comeado a nos reconciliar.  Fez pausa, tentando afastar a melancolia.  E ento, a minha verso  muito diferente da que consta em seu relatrio?
	Sim, muito  afirmou Jackson.
Gergia irritou-se^No queria a solidariedade dele.
	Ento, agora pensa diferente, ? No sou mais a me solteira desprezvel com um filho ilegtimo, sem educao... e sem dinheiro? Sabe, aquela oportunista que no era boa o bastante para se casar com seu irmo?
Jackson a fitou, mudo. Tentava controlar a raiva? Ou finalmente conseguira deix-lo sem fala?
	Eu a considero uma pessoa forte e corajosa e uma me maravilhosa  respondeu ele.  Tenho certeza de que muitos homens a pediram em casamento... embora no imagine nenhum bom o bastante para voc.  Quando ela tentou desviar o olhar, ele a impediu.  Isso responde  sua pergunta?
Gergia sentiu um n na garganta e achou que ia chorar. Baixou o rosto e tateou o cinto da saia.
	 muito gentil voc dizer isso. Muito gentil...
	 a verdade.  Ele continuava contemplando seu rosto, a ponto de incomod-la.  Ento... houve muitas propostas?
Gergia quis rir, mas Jackson parecia to srio, quase nervoso, esperando pela resposta, que ela no se atreveu. A verdade era que no houvera nenhuma proposta de casamento, porque no surgira ningum disposto a isso, depois do nascimento de Noah. s vezes, sentia-se sozinha, mas estava convencida de que no teria nenhum relacionamento srio at o filho ficar mais velho.
Mas no se humilharia tanto diante de Jackson. Respirou fundo e inventou:
	Oh, sim, uma infinidade! No me interprete mal, mas costumo ser assediada. s vezes, chega a ser um aborrecimento. Homens me param a todo o momento para me pedir em casamento, na mercearia, no correio, na biblioteca ...  Meneou a cabea, fingindo desgosto.  E depois vm as caixas de bombons. E as rosas  acrescentou, entediada.
	Oh, sim. Os bombons e as rosas. Que previsvel.  Jackson sorriu, o semblante iluminado. Gergia sentiu um aperto no corao.  Alguns homens so to maantes... Ora, eu nunca mandaria bombons e rosas para uma mulher como voc  assegurou.
Gergia quis perguntar o que ele mandaria, mas conteve-se.
	No estou procurando um relacionamento agora  declarou, mais sria.  E provavelmente continuarei assim, at Noah crescer um pouco.
Jackson no replicou. Gergia imaginou em que ele pensava, mas no adivinhou nada pela expresso. Fosse o que fosse, primeiro o fez sorrir e ento... franzir o cenho.
Finalmente, ele a encarou.
	Alm de ser um grande garoto, comeo a achar que seu filho  um gnio. Mas voc j deve saber disso.
	As professoras dizem que ele  abenoado  confirmou Gergia, aliviada com a mudana de assunto.  Elas fazem o que podem por ele. Do-lhe tarefas especiais e eleja pulou um ano. Mas... bem, esta  uma cidade pequena. Os recursos so limitados.
		Sim, deve ser... um desafio para voc.  Ele fez pausa, ponderando cuidadosamente sobre o que diria em seguida.
	Bem, um menino assim com certeza ir para uma boa universidade. Noah pode conseguir uma bolsa de estudo.
	Acho que sim.  Gergia assentiu.   o que espero, pelo menos.
Jackson recordava o passado.
	Sabe, Noah me lembra muito Will nessa idade. At os culos. Sempre lendo e com animais no quarto. No existia o jogo "Teste o seu Q.I." na poca, mas aposto como ele seria um campeo, como Noah.
	Tambm noto semelhanas.  Gergia riu.  Por que no me fala da sua infncia, Jackson? Voc brigava muito no parquinho?
	Brigava mais do que brincava  revelou ele, risonho. 	Metade do tempo, eu defendia Will de algum valento.
	No me surpreende. At hoje insiste em proteg-lo...
	Bem, temos mais em comum do que voc imagina, Gergia  explicou Jackson.  Tambm perdemos nossa me cedo e meu pai no era muito carinhoso. Ele viajava muito a negcios. Ou talvez fosse apenas uma desculpa para nos evitar, nunca soube ao certo. De qualquer forma, sou quase dez anos mais velho do que Will e praticamente o criei. Acho que meus instintos protetores nunca desaparecero.
Gergia engoliu em seco. Parecia que Jackson no era o nico que precisava de uma lio sobre no julgar as pessoas antecipadamente. Solidria com a histria dele, sentiu dor no corao pelo abandono vivido... no apenas pelo homem ali sentado, mas pelo garotinho magoado e zangado que fora. 
	Entendo o motivo, mas espanta sua certeza de que minha irm, Faith... ou qualquer mulher, portanto... s pode estar interessada em Will por causa do dinheiro dele. No consegue se desarmar? No percebe que age de forma ilgica e injusta?
Jackson ficou tenso e se fechou novamente. Gergia percebeu que tocara num ponto delicado, mas no se arrependia da reprimenda. A resposta dele nunca lhe parecera to importante. No apenas por causa do futuro de Faith... mas talvez pelo seu...
	Talvez seja ilgico e injusto  admitiu ele, por fim.  Mas a vida  um jogo de desafios, Gergia. O amor nem sempre  justo. Tenho meus motivos para desconfiar das motivaes das mulheres quanto se trata de romance. Motivos bastante lgicos  assegurou, convicto.
Gergia desviou o olhar. Jackson j descrevera a ingenuidade de Will e suas desiluses amorosas. Mas no sabia que o irmo revelara a elas a desiluso amorosa dele. Seria capaz de contar espontaneamente? De repente, pareceu importante que ele no fugisse daquelas lembranas. Lembranas de quando seu corao fora despedaado.
Queria ouvir a histria por Jackson contada por ele mesmo, mas no abordaria o assunto. Talvez um dia ele contasse, quando j no importasse tanto...
	Voc parece to convencido  observou.  No vou me atrever a mudar sua opinio.  Pegou uma almofada e alisou o tecido de seda.  Ainda est determinado a encontr-los... Faith e Will?
Jackson surpreendeu-se com a pergunta. Passou a mo no rosto e suspirou.
	Sim, quero encontr-los... embora no tenha certeza de que adiantaria. Pelo que disse, eles j devem estar casados.
	Provavelmente  afirmou Gergia, secretamente entusiasmada.
Sua irm exultava s ao segurar a mo de Will, e ele demonstrava a mesma felicidade ao fit-la, apaixonado. Era evidente que tinham nascido um para o outro. Mesmo que Jackson os encontrasse, seria preciso muito mais do que sua ira para separar o jovem casal.
	Acho que, em parte,  apenas orgulho tolo  considerou Jackson.  Veja, nunca imaginei que meu irmo chegasse a esse extremo para se livrar de mim.
Gergia meneou a cabea, inconformada. O homem no tinha percepo? Mas era evidente que ele amava o irmo e estava magoado.
	Bem... quando o encontrar, devia desabafar, acho.
Ento, suspirou e espreguiou-se. No se lembrava de alguma vez conversar com algum daquele jeito, nem mesmo com sua melhor amiga, Maria.
	Acho que est na hora de subir.
	Eu ajudo  insistiu Jackson, levantando-se.
Gergia sentia-se capaz de subir a escada sozinha, bem devagar, mas decidiu aceitar a ajuda e acabar logo com aquilo. Embora o contato com Jackson fosse enervante... para dizer o mnimo... seria mais rpido do que rastejar pela escada. E menos constrangedor.
	Muito bem, vamos l  concordou ela.
Jackson ajudou-a a se levantar e a segurou com firmeza pela cintura. Exaustos, venceram a escada e chegaram ao corredor no andar superior, parecendo mais competidores numa corrida de trs pernas.
	Eu devia ter carregado voc, Gergia  concluiu ele, exasperado com o progresso lento.  Voc no pesa tanto assim.
	Obrigada por no me chamar de gorda  replicou ela.
Chegaram ao quarto. Gergia acendeu o abajur no criado-mudo e se deixou cair na cama.
	Precisa de ajuda... para tirar a roupa?  Jackson falara sem malcia, mas havia um brilho intrigante em seu olhar.
Gergia empertigou-se.
	 muita gentileza, mas posso continuar sozinha.
Ele riu.
	No pode me culpar por tentar.
Oh, ela no o culpava. Na verdade, era difcil v-lo ali no quarto e no imaginar cenas romnticas.
A melhor defesa era o ataque, e Gergia seguiu o ditado popular.
	Espero que no tenha interpretado mal quando concordei que ficasse aqui e ajudasse, Jackson. Quero deixar algo bem claro: enquanto estiver nesta casa, no haver mais... incidentes entre ns.
	Incidentes?  Ele fingiu inocncia, mas ento sorriu sexy.  Oh, como aquele no banheiro?
	Sabe exatamente a que me refiro.
	Gergia, admito que, s vezes, acho voc irresistvel, e somos adultos o bastante para saber que so necessrios dois para se criar um... incidente. Francamente, acho que gostou de me beijar tanto quanto eu gostei de beijar voc.
Gergia sabia que tinha de responder, em prol da dignidade. Ao v-lo se agachar em sua frente, porm, emudeceu, incapaz de negar o que ele acabara de afirmar.
Sim, gostara de beij-lo. Mais do que queria admitir. E adoraria que ele repetisse a cena.
	O que foi, Gergia?  provocou Jackson.  O gato comeu sua lngua? Para uma mulher que tem todas as respostas, voc ficou muito quieta de repente.
	Acho que voc devia descer agora, Jackson. Boa noite.
Jackson apoiou as mos na cama, uma de cada lado de seu corpo, aprisionando-a entre os braos musculosos. Ele estava prximo o bastante para que sentisse o calor de seu corpo agora, bem como o cheiro dos cabelos lavados, da pele aquecida. Ele era to alto que, mesmo ajoelhado no cho, tinha o rosto na mesma altura do seu, os lbios a poucos centmetros de distncia.
	Quero lhe dar um segundo beijo de boa-noite. Preciso beij-la. Quanto antes melhor  declarou ele, rouco, aflito.
 Prometo que paro quando voc quiser.  s pedir.
Gergia sentiu a boca seca. O problema era que, quando ele comeasse, no tinha certeza de que teria fora de vontade para det-lo.
No sabia nem mesmo se ia querer que ele parasse.
Claro, Jackson j desconfiava de tudo isso. Ao mergulhar em seus olhos castanhos, sentiu-se perdida, caindo num tnel infinito. Como Alice no Pas das Maravilhas. Quando aterrissou, estava em outro mundo, diferente da existncia confortvel e ordenada  qual se acostumara.
Rpido como um raio, ele lhe tomou o rosto e passou a beijar com volpia.
Gergia sentiu a mo dele nos cabelos, a lngua provocando, forando passagem. A invaso era arrebatadora. Ergueu as mos e se agarrou aos ombros fortes, sentindo uma onda de prazer invadir-lhe o corpo, deixando-a confusa e fraca.
Ento, to de repente quanto comeara, ele se afastou e ficou de p, olhando-a de cima. Gergia estava confusa... e perdida, como se lhe arrancassem um presente que acabara de receber.
	Boa noite, Gergia.  Ele sorriu, convencido e satisfeito.  Chame se precisar de ajuda durante a noite.
	Posso passar sem esse tipo de ajuda  respondeu ela.
Jackson fechou a porta e ela ouviu seu riso abafado. Como conseguiria suportar a presena daquele arrogante durante os dias seguintes?
Deitou-se na cama e apertou um travesseiro contra o rosto. Assim escondida,/chorou de frustrao. De repente, desejou no ter concordado com o esquema de Will e Faith. Se no tomasse cuidado, no seria a ltima a rir... talvez nem risse. Principalmente se Jackson continuasse em sua casa.
A fim de dispensar a ajuda dele, surpreenderia a todos no dia seguinte com uma recuperao dramtica. Ento, Jackson no teria desculpa para permanecer ali. Mais uma noite com Jackson Bradshaw sob seu teto e... no resistiria a se enroscar na cama com ele, tinha certeza.
O homem a seduzia.
CAPITULO V

Gergia despertou na manh seguinte com o brilho do sol e um aroma de caf fresco. Finalmente, parara de chover. Ao descer a escada, percebeu que o tornozelo luxado estava bem melhor.
 At agora, tudo bem  murmurou consigo mesma, descendo devagar os degraus.
Ao passar pela varanda lateral, ouviu a mquina de lavar e a secadora em funcionamento. Algum... Jackson provavelmente... j cuidara da roupa suja.
Encontrou Jackson na cozinha, preparando ovos mexidos. Tinha os cabelos midos e vestia roupas limpas... as dele mesmo, aparentemente... cala jeans desbotada que o deixava com jeito de modelo de revista, camisa de algodo a enfatizar os ombros largos e os braos musculosos. A cor era diferente, nem vermelha, nem vinho, e o tecido parecia fino e muito caro. O fato era que a cor indefinvel contrastava maravilhosamente com os cabelos e olhos castanho-escuros dele. Os mocassins completavam o conjunto com um ar esportivo... como se ele estivesse no iate de algum amigo em Newport. Mal podia esperar para lev-lo  cidade, onde noventa e nove por cento dos homens usavam botas de cau-bi ou sociais, para trabalhar. Algum ali j vira calados como os dele?
Jackson olhou-a rapidamente ao v-la entrar. Ela se deixou cair numa cadeira e, num segundo, viu uma caneca de caf em sua frente.
	Creme e acar?  indagou ele, educado.
	Puro est timo  respondeu ela, experimentando um gole.
	Espero que goste de caf forte  comentou ele, e voltou para o fogo.
Caf forte e homens teimosos sempre foram seu fraco. Mas ela no revelaria o segredo. O caf estava bom. Talvez melhor que o dela.
	Do jeito que eu gosto  elogiou.
	Que bom.  Quando a torrada adquiriu o tom perfeito, Jackson a colocou num prato e besuntou com manteiga.
	Parece que acordou cedo  comentou Gergia.
	Com os pssaros. Vi um belo alvorecer enquanto caminhava at meu carro para pegar alguns itens.
Ele j fora at o carro e voltara? Que eficincia, pensou Gergia. Estava explicado onde conseguira as roupas.
	E Noah? Vai de carona para a escola ou toma o nibus?
	O nibus passa no fim da estrada s sete e meia.  Gergia verificou a hora. Passava um pouco das seis e meia.
Noah logo surgiu, esfregando os olhos sonolentos por trs dos culos. Jackson saudou-o e serviu ovos, torradas, gelia e suco.
	Parece gostoso.  Noah sentou-se e comeou a tomar o caf da manh.
Gergia achou graa. O filho nunca ficava satisfeito quando ela preparava ovos mexidos, insistindo em cereais com leite.
	Estava pensando, mame... Talvez seja melhor eu ficar em casa hoje e ajudar voc.
O olhar inocente e doce no enganou Gergia, que sabia exatamente o que ele tramava. Qualquer coisa para no ir  escola!
	No precisa faltar  aula, Noah. Jackson est aqui. Voc ter muito a fazer quando ele for embora.
	Quanto tempo vai ficar?  perguntou Noah a Jackson, que se sentara a seu lado.
	Oh... depende do que o mdico disser a sua me.  O hspede olhou para Gergia.  Alguns dias, acho.
	Legal.  Noah encheu a boca com a torrada.
Jackson sorriu, satisfeito com a reao do menino.
Gergia estava satisfeita tambm. Raramente saa e nunca apresentara um namorado seu a Noah. Preocupava-se com o fato de o filho ter to pouca influncia masculina. Era evidente o entusiasmo do menino em absorver todo exemplo viril de Jackson. Passara a se sentar muito ereto na cadeira, como o novo amigo, e tentava imitar seu manuseio do garfo e da faca.
Gergia imaginou se seria benfico que Noah se apegasse a Jackson. O hspede iria embora dali a alguns dias e quem sabia quando o veriam novamente?
Noah ficaria deprimido quando Jackson partisse, percebeu Gergia. E ela tambm...
	Quer mais alguma coisa, Gergia?  A voz agradvel de Jackson invadiu-lhe os pensamentos.  Torradas? Voc mal tocou nos ovos mexidos. Quer que eu prepare os ovos de outro jeito?
	... no, obrigada. No estou com muita fome.
	E o tornozelo? Est doendo?
	Est melhor. Desinchou um pouco.  Gergia mostrou o p.  Mas acho que devo ir ao mdico, mesmo assim.
	Eu insisto  declarou Jackson. Ele se levantou e comeou a arrumar a mesa.  Eu a levarei assim que se vestir.
Com a ajuda de Noah, Gergia subiu ao quarto e trocou de roupa. Parada diante do armrio, demorou a escolher um traje. Ouvira Jackson ao telefone, falando com a locadora de automveis e cuidando de seus negcios pessoais. Era evidente que ele fazia algum sacrifcio para permanecer ali, e planejava lhe agradecer. .No entanto, deixaria claro que no esperava... nem queria... ajuda por mais tempo.
Finalmente, optou por uma saia longa com estampa floral, blusa pssego e bijuterias de prata.
A blusa pssego combinava com seu tom de pele, constatou, satisfeita. Aplicou um pouco de maquiagem e ergueu os cabelos para decidir se os prenderia ou no. Mas no estava se vestindo para Jackson. De forma alguma. Simplesmente, facilitaria o exame mdico, se fosse de saia. Alm disso, passaria na loja e precisava parecer profissional.
Talvez Gergia no pensasse em impressionar Jackson ao se arrumar, mas ele ficou impressionado. Sentado na cadeira de balano, ele lia um jornal velho, mas ps o calhamao de lado ao v-la, admirando-a dos cabelos midos s sandlias de salto baixo.
	Voc est linda!
	Ora, apenas me vesti  retrucou ela, modesta. Pegou a bolsa no aparador antigo no vestbulo.  Podemos ir?
	Quando quiser.  Jackson a ultrapassou e abriu a porta com um floreio. Ofereceu o brao.  Posso ajud-la com os degraus?
	Acho que consigo  declarou Gergia, segurando-se no corrimo da varanda. Jackson desceu os degraus e a aguardou, admirando-a novamente. Era lisonjeiro, de certa forma, mas definitivamente a deixava constrangida.
	Voc est realmente muito bonita  reforou ele, enquanto caminhavam lado a lado at a caminhonete. O motor pegou sem problemas e pegaram a estrada principal.
	Obrigada.  Gergia riu.  Temo que tenha me visto nas piores ocasies, Jackson. Quase sempre, coberta de lama!
	Bem... no penso assim  replicou ele, sugestivo.
Jackson pensava no episdio do banheiro... na toalha que lhe arrancara. Corada, apreciou a paisagem pela janela. Bem, ele vira o bastante para formar uma opinio, concedeu.
Ele ligou o rdio. As nicas estaes que conseguiu sintonizar tocavam msica sertaneja, que no deviam ser do gosto dele. Mas ele ficou ouvindo sem comentar nada.
Logo chegaram  cidade e ao consultrio mdico. Gergia permitiu que Jackson a ajudasse a saltar da cabine. Ele a sustentou pela cintura e ela se segurou nos ombros dele.
Pareceu uma eternidade at seus ps tocarem o solo, enquanto seu corpo deslizava junto ao dele, suscitando pensamentos perigosos.
Quando a tortura finalmente acabou, ela desviou o olhar, equilibrou-se e alisou a roupa. No se atrevia a olhar para Jackson, mas sentia que ele tambm se perturbara. Tenso de repente, retendo o flego, ele colocou os culos de sol.
Amparando-a pelo cotovelo, ele a ajudou a chegar ao consultrio mdico. A recepcionista, Flora Potts, saudou Gergia amistosamente e indagou sobre a luxao, como haviam passado durante a tempestade e se Noah continuava progredindo na escola. Flora era boa pessoa, mas muito fofoqueira.
Enquanto falava, a mulher no tirava o olhar de Jackson. Gergia no a culpava. Ele era mesmo lindo de se ver, sentado na poltrona de plstico, folheando uma revista velha. Estranhos eram poucos e raros em Sweetwater. Principalmente estranhos bonites. Gergia sabia que Flora tentaria arrancar todas as informaes sobre o forasteiro, para jogar na rede fofoca.
	Mas... quem  o seu amigo?  especulou a recepcionista, quanto no se aguentou mais.
	Ah...  Jackson, um amigo nosso  respondeu Gergia, descontrada.  Ele passava pela cidade durante a tem pestade e... nos fez uma surpresa.
Flora estreitou o olhar, deixando claro que no acreditava na histria. Gergia pensou que escaparia do interrogatrio quando o telefone tocou, mas a recepcionista atendeu, dispensou rapidamente o interlocutor e se concentrou nela.
	Que gentil da parte dele traz-la aqui, para examinar esse tornozelo... Ele vai ficar muito tempo para ajudar?
	No... Acho que no.
Flora ia fazer mais perguntas, mas a porta da sala de exames se abriu e a dra. Sarah Oakley a chamou.
Salva pelo gongo.
Gergia gostava da dra. Sarah, mais que isso, respeitava-a. Quando a mdica chegara  cidade, anos antes, as duas tornaram-se boas amigas, embora seus esquemas de trabalho no permitissem muito convvio social.
Sarah era rpida e eficiente. Fazia comentrios precisos durante o exame.
	Na maca, querida. Oh, mas que saia linda! Voc est tima. Para algum doente, quero dizer...
	Obrigada  grunhiu Gergia, enquanto se deitava na mesa de exame.
Sarah tirou a sandlia de seu p esquerdo, avaliou o inchao e comeou a tatear a rea.
	Ento, quem  o bonito na sala de espera?
	Ai!  gritou Gergia, ao sentir dor.  Que bonito?  indagou, fazendo-se de desentendida.
	Aquele homem grande, de ombros largos e atitude mal-humorada?  A mdica soltou seu p e tateou o joelho.
	Oh... Ele  s o meu motorista hoje. Nada de mais.
Sarah riu e reposicionou a saia de Gergia.
	Se  o que diz, querida. Gostaria de medir sua presso neste momento... aposto como est nas alturas.
Gergia sentou-se bufando.
	Sarah, trata-se de um amigo. Ele  irmo do noivo de minha irm. Satisfeita agora?
	Hum...  Sarah no parecia nada convencida.
Gergia revirou os olhos.
	Qual  o diagnstico aqui, doutora?
	Parece que voc torceu alguns ligamentos, mas no quebrou nem trincou nenhum osso, felizmente. Alterne bolsa de gua fria e morna pelos prximos dias e mantenha o p erguido  recomendou a mdica.  No mantenha a bandagem durante a noite  alertou, enquanto enfaixava o tornozelo, para dar mais suporte.  Vou lhe emprestar esta bengala ajustvel.  Apresentou uma, de metal.  Se houver algum novo... principalmente com seu novo motorista... chame a qualquer hora, Gergia  concluiu, risonha.
	Obrigada, doutora.  Gergia reprimiu o riso. Sarah ajudou-a a descer da mesa e acompanhou at a porta do consultrio.
Na sala de espera, Jackson correu a amparar Gergia. Ela ainda olhou por sobre o ombro ao sarem e viu Flora sorridente... j digitando um nmero no telefone.
Bem, para onde agora?  indagou Jackson, ao dar partida na caminhonete.
Gergia viu as horas. Em cinco minutos, a cidade inteira se postaria  janela de casa, para ver o estranho bonito que acompanhava Gergia Price. J estava cansada de responder a perguntas sobre Jackson e s haviam feito uma parada.
Claro, havia um lugar seguro onde poderiam se esconder por algum tempo. Sua prpria lojinha.
	Gostaria de passar na minha loja  declarou.  Minha amiga Maria est tomando conta para mim, e tenho certeza de que ela tem tudo sob controle. Mas, j que estamos aqui, eu bem poderia visit-la. No vai demorar muito  prometeu.
	Demore o quanto quiser.  Jackson seguiu as instrues e tomaram a rua principal.  Na verdade, gostaria de conhecer a sua loja.
Gergia espantou-se e ficou inquieta com a declarao. Jackson j sabia que ela no representava ameaa ao irmo dele, mas isso no apagava os comentrios desagradveis que ele fizera sobre sua habilidade mercantil.
Por outro lado, sempre se orgulhara da loja. Os clientes achavam o local nico e interessante. Ela se esmerava na composio das vitrines, misturando peas antigas autnticas e outros objetos mais comuns.
A loja nunca ficava cheia de consumidores, mesmo no vero, quando turistas s vezes vagavam pela cidade, seguindo roteiros que descreviam Sweetwater como parte do genuno velho Oeste. A sala de exposio estava sempre tranquila, fresca e mal-iluminada, mesmo nos dias mais quentes. Gostava de se sentar no banquinho alto, atrs do balco-vitrine com jias e peas antigas encontradas em liquidaes de garagem. Durante as longas tardes sem movimento, aproveitava para escrever e at apreciava a falta de clientes.
Mas Jackson no sabia sobre sua carreira de escritora, pois usava o pseudnimo M.G. Price. Gergia era seu nome do meio. O primeiro nome, Mildred, um segredo bem-guar-dado. Sendo autora de mistrios, seu nome tambm deveria soar... enigmtico. Alm disso, a cidade de Sweetwater era to pequena que Gergia achara melhor manter aquela ati-vidade em segredo. Price era um sobrenome comum, poucas pessoas desconfiariam de que ela fosse uma escritora.
A renda proveniente dos direitos autorais era humilde, porm ajudava a pagar as contas, embora no lhe permitisse abrir mo da loja. Seu primeiro ttulo, publicado dois anos antes, vendera poucos exemplares. Mas a agitada editora, Lyz Dylan, parecia ter esperana de que o prximo romance atingisse o "ponto de equilbrio". As resenhas favorveis convenceram a casa de publicaes a promover o ttulo, mas Gergia procurava no se animar demais. Por experincia ou por natureza, nunca contava com os ovos ainda dentro da galinha.	
Gergia imaginou o que Jackson acharia de seu texto. Desejava contar-lhe sobre sua outra atividade, mas, ao mesmo tempo, temia expor essa parte de sua vida. Ficaria magoada se ele no desse ateno ou menosprezasse sua capacidade. No ganhara muito dinheiro com os dois livros j publicados e sabia que Jackson, apesar da gentileza que demonstrara nos dois ltimos dias, avaliava tudo pela ltima linha do balano: vermelho ou azul. Da sua relutncia.
Jackson usava o dinheiro como medida universal, mas, quando outras pessoas... mulheres... faziam o mesmo, ele se ofendia. Alm disso, gostaria de se envolver mais com um homem to reacionrio... to preconceituoso?
Envolver-se mais? Gergia sacudiu a cabea ante a ideia assustadora. Em que estava pensando?
Jackson diminuiu a marcha para conhecer o lugarejo, ao passarem pela rua principal. Era preciso passar devagar por Sweetwater, para ver a cidade, conforme comentara ele ao chegar. Quem passasse correndo nem notaria o pequeno agrupamento urbano.
	 uma cidadezinha muito bonita  opinou ele, gentil.  Entendo por que gosta tanto daqui.
Ele estava sendo educado. Gergia sabia que, no fundo, ele achava o local um fim de mundo.
	Tem suas vantagens e desvantagens. Assim como todos os outros lugares. Mas cresci numa cidade assim, no longe daqui, e por isso me sinto confortvel.
	Sim, confortvel.  uma boa palavra  aprovou Jackson, observando as lojas com interesse.
Gergia apontou para seu estabelecimento e ele estacionou a caminhonete junto ao meio-fio.
Um toldo verde-escuro sombreava a fachada da loja. Uma placa anunciava em letras douradas: "O Sto". Jackson contornou o veculo e abriu a porta do lado do passageiro.
Por mais modesto que o local fosse em lucratividade e estoque, aquela loja era uma conquista para uma mulher como ela, com pouca educao formal e recursos limitados. Gergia orgulhava-se do pequeno negcio, com toda a razo.
No importava o que Jackson Bradshaw pensasse.
Maria Nunez saudou Gergia preocupada e olhou para seu tornozelo como uma mame galinha zelosa.
	Pobre Gergia... Oh, querida... Olhe para essa bengala horrvel. No vai andar com isso, vai?
	No enquanto eu estiver por perto  declarou Jackson, sorrindo.
	Voc devia ficar por algum tempo, ento  aconselhou Maria.  Ela cozinha muito bem, sabe.
	Eu sei.
Apoiada no brao dele, Gergia sentiu o rosto queimar. Contara  amiga os fatos bsicos sobre Jackson, por telefone, no dia anterior. Maria no era fofoqueira e Gergia sentia-se segura em lhe fazer confidncias. Por outro lado, a amiga insistia em lhe arranjar encontros s escuras e obviamente estava animada em v-la na companhia de um estranho bonito e aparentemente descomprometido.
Gergia apoiou-se no balco de vidro e desvencilhou-se de Jackson. Assumiu sua posio costumeira, numa banqueta alta com estofamento de veludo, perto da caixa registradora.
	Ento, como vo os negcios, Maria?  indagou, descontrada.
A amiga deu de ombros.
	Um casal de idosos entrou pela manh e gostou da prateleira em patina azul ali do canto. Disseram que iam voltar, mas nunca se sabe.
	Oh... eu sei o que quer dizer.  Gergia assentiu enquanto separava vrios recibos e contas.  Esto sempre olhando e avaliando. Quando voltam, a pea em que estavam de olho j foi vendida.  Riu e olhou para Maria.  Grave o que digo, o prximo item a passar por aquela porta ser a prateleira azul. E no ser comprada por esse casal, tenho certeza.
Enquanto Gergia e Maria conversavam sobre assuntos relacionados ao negcio, Jackson andou pela loja, as mos enfiadas nos bolsos da caa jeans, e ficou fascinado. Parava aqui e ali, pegava uma pea ou outra para examinar, interessou-se por uma coleo de postais antigos num cesto de vime. Leu os dizeres nas costas de um deles em voz alta:
	"Querida mame, St. Louis  supimpa. Estou me divertindo. Espero que seu clculo biliar esteja melhor. Com amor, Edna."
	Oh, no comece  suplicou Maria.  J li todos eles. A gente fica imaginando as pessoas que escreveram, sabe?
Jackson assentiu.
	Sim, d para imaginar.  Pegou mais alguns cartes e leu s com os olhos.
Gergia imaginava que ele se aborreceria rpido e ficou contente ao v-lo distrado e relaxado. Observando-o discretamente, notou que parecia deslocado naquele cenrio. To... grande e msculo entre prateleiras com babados, abajures com franjas e almofadas de retalhos. No obstante ele vasculhava as relquias com interesse, imaginando a utilidade de aparelhos antigos.
Gergia quase acabara de lidar com a correspondncia quando notou Jackson lendo os ttulos dos livros em uma mesa ao fundo. Havia uma pilha de seus romances de mistrio l, que ela vendia juntamente com outros ttulos, velhos e novos. Imaginou se ele desconfiaria de uma relao entre ele a autora M.G. Price. Restava-lhe cruzar os dedos e aguardar.
	Este  bom?  indagou ele, agitando um volume.
Gergia reteve o flego. Era um dos dela.
	Oh... esse?
	J o leu?  insistiu Jackson. Abriu o volume, leu a orelha e ento folheou algumas pginas.
Gergia assentiu. Era difcil, mas manteve a expresso neutra e voltou a ver a correspondncia.
	 muito bom  afirmou, casual.  Se gosta de mistrios...
	Eu gosto  afirmou Jackson, admirando a capa.  Acho que vou levar um. Sempre sobra tempo para ler no avio.
Ele foi ao balco e abriu a carteira, Gergia sentiu um n na garganta e dispensou o pagamento.
	No se preocupe.  por conta da casa.
	Tem certeza?
	Claro. Quero que fique com ele. Como presente de agradecimento  explicou ela.  Alm disso, eu... conheo a autora e os consegui de graa.
	Oh, nesse caso, obrigado.  Jackson sentia-se melhor sabendo que no daria prejuzo.
Gergia sabia que no devia ter acrescentado detalhes, induzindo-o ao erro. Mas no pudera resistir.
Ela no era vaidosa quanto  atividade de escritora, mas no fundo se aborrecera por Jackson no desconfiar de que era ela a autora do livro.
Maria espanava o p na seo de porcelanas e ouviu a conversa. Gergia percebeu sua reao, mas deu a entender que no deveria se manifestar. A amiga entendeu e permaneceu calada.
Na sada, Gergia escolheu uma bengala de mogno com cabo de marfim, tirou a etiqueta de preo e escondeu atrs do balco a bengala que Sarah lhe emprestara.
	Se tenho de usar bengala, que seja uma com o meu estilo  explicou a Maria e Jackson.
	E voc  mesmo uma mulher de estilo nico  comentou Jackson.
Maria sorriu, mas no comentou nada, pelo que Gergia sentiu-se grata. Aps as ltimas recomendaes e instrues, Jackson lhe ofereceu o brao com um floreio cavalheiresco e deixaram a loja.
CAPTULO VI

Aps tanta demora na cidade, Gergia imaginava que Jackson estivesse ansioso para voltar para casa a fim de dar seus telefonemas, verificar os e-mails... ou fazer o que quer que advogados de grandes corporaes faziam quando estavam longe de sua base.
Mas Jackson a surpreendeu pedindo que estendessem o passeio por Sweetwater.
	Estou faminto  reclamou ele, assim que saram da loja.  H algum lugar por aqui onde possamos almoar?
Gergia estava com fome tambm. Talvez queimasse muita energia ao se deslocar mancando. Ou talvez fosse a animao de andar por a com Jackson.
	Claro, mas s se voc me deixar pagar  declarou ela, com firmeza.
	Gergia, voc j me deu o livro  protestou ele.
	No, estou falando a srio.  Gergia cruzou os braos e o encarou.  Seno, no vou.
	Est bem, est bem.  Ele riu de sua expresso determinada.   que sou novo por aqui. No quero dar escndalo na rua principal no meu primeiro dia  explicou, como se isso fosse importante.
	Faz bem  aprovou Gergia.   uma cidade pequena. As pessoas falam.
	Eu notei  admitiu ele. Isso significava que ouvira a conversa dela com Flora.
Gergia sentia-se envergonhada. Dissera algo que o levara a pensar que ela nutria... expectativas romnticas? Vasculhou a memria. No, estava quase certa de que no insinuara nada. Mesmo assim, os homens podiam interpretar mal algumas atitudes, algumas palavras. Olhou-o de soslaio enquanto percorriam a calada, sem conversar.
Bem, no adiantava chorar agora. Alm disso, Jackson partiria no dia seguinte. E ela ficaria para enfrentar o escndalo. Esperava que, durante o almoo, tivesse a oportunidade de lhe pedir para que fosse embora no dia seguinte.
Quando entraram no Sweetwater Caf, todos olharam para eles. No era de admirar, j que Gergia conhecia todos os funcionrios e praticamente todos os clientes presentes. As pessoas no estavam propriamente pasmas, mas ficaram muito curiosas quanto ao forasteiro que a acompanhava.
A caminho de uma mesa vazia junto  janela, Gergia cumprimentou os conhecidos e explicou por que mancava e se apoiava numa bengala. Eles desejaram melhoras e alguns indicaram remdios caseiros, como aplicar fatias de batata crua no tornozelo para diminuir o inchao, ou mergulhar o p em suco de tomate para apressar a recuperao.
Gergia agradeceu a todos, mas sentiu alvio quando finalmente chegaram  mesa.
	Ouvi dizer que  bom passar suco de tomate na cabea para aliviar ressaca, mas nunca imaginei que ajudaria num p torcido  comentou Jackson.
	Oh, aquela era a sra. Cobbs. Ela est muito idosa e se confunde s vezes. Acho que confundiu p com cabea...
	Bem, faz sentido  replicou ele, risonho.  Diga-me, todo mundo  sempre to atencioso, ou s esto mostrando interesse por seu bem-estar porque est eom um estranho?
	Bem, provavelmente esto imaginando quem voc . Mas so pessoas gentis, sim.
	Bem, voc com certeza  popular  observou Jackson.  J pensou em concorrer  prefeitura? Ganharia fcil... moradora de longa data, prspera empresria.
Gergia sorriu. Sabia que ele a provocava, mas foi um elogio, mesmo assim.
	Talvez, quando Noah for mais velho, eu tenha mais tempo.
	No devia adiar tantas coisas para quando Noah ficar mais velho, Gergia  aconselhou Jackson, srio agora.  No vai querer acordar um dia e ver que a vida passou, certo?
Ela sabia que Jackson pensava no comentrio que ela fizera na noite anterior, quando afirmara que adiaria os romances at que Noah estivesse mais crescido. Embora Jackson tivesse um pouco de razo, no queria abordar tal assunto neste momento.
Nina, a garonete, logo apareceu.
	Ol, Gergia. O que aconteceu com a perna?
	Escorreguei na lama  explicou ela, sucinta.  Vou pedir o de sempre  acrescentou.  E limonada, obrigada.
Nina rascunhou o pedido.
	E voc, amigo?  indagou a Jackson.
Ele olhou para Gergia e ergueu o sobrolho.
	No h cardpio?
Nina riu e deu uma tapa amigvel no ombro de Jackson.
	Estou vendo que  mesmo um forasteiro.  Guardou o bloco e o lpis no bolso e afastou-se.  Volto num segundo para pegar o seu pedido. No se apresse.
	No h cardpios aqui. S o que est no quadro  explicou Gergia, indicando uma lousa pequena sobre o balco.
Jackson voltou-se para o cardpio e estreitou o olhar.
	Est meio borrado. No consigo ler daqui.
Gergia tinha certeza de que nada mudara em anos. Talvez desde o ltimo proprietrio do restaurante. Todos que frequentavam o local conheciam os pratos de cor.
	No se levante. Eu digo o que est escrito.
Gergia recitou a lista, em ordem alfabtica, comeando com o bife at chegar  salada de atum.
	No recomendo a ltima  finalizou.  A cozinheira coloca um tempero doce. Sempre me d azia.
	Sabe a lista de cor? Incrvel...
Gergia no sabia por que ele estava to impressionado.
	Se morasse aqui h tanto tempo quanto eu, tambm saberia.
	Mas como  a comida?  boa?
	Depende...
	De qu?
	Do que voc chama de boa, acho  definiu Gergia, rindo.
Uma refeio preparada por chef'num restaurante quatro estrelas, com vrios pratos e vinhos apropriados para cada receita provavelmente ganharia a aprovao de Jackson Bradshaw. Gergia imaginava se ele conseguiria engolir exemplos da humilde cozinha regional do "Sweetwater Caf". Seria interessante observar.
A garonete voltou e preparou o lpis.
	Ento, o que vai ser?
Ele franziu o cenho, considerando as opes.
	Vou pedir... o que la pediu  resolveu, como se no conseguisse se decidir.
	Est bem, querido  acatou Nina.  Assim est timo.
Gergia no conteve mais o riso.
	Qual  a graa?  indagou Jackson.
	Voc nem sabe o que eu pedi! Posso ter pedido... sei l... bolo de tatu!
	 algum prato especial? No me lembro dele na lista...
	Espere e ver  provocou ela, fazendo suspense.
	timo, voc sabe que gosto de surpresas.
Gergia fitou-o de olhos arregalados. Ela o conhecia havia dois dias, mas tinha certeza de que no gostava de surpresas.
	Mesmo? Desde quando?
	Desde... esta manh, acho.  Jackson franziu o cenho.  Ou talvez tenha comeado antes de ontem, quando voc se infiltrou em mim...
Gergia enrubesceu e desviou o olhar.
Jackson estava flertando. Sem saber como agir, estudou o papel de mesa com o mapa do Texas, que j vira milhares de vezes.
	O que foi?  indagou ele.
	Nada.  Ela meneou a cabea e olhou pela janela. A rua estava tranquila. Via a praa da cidade, que parecia sombreada e fresca, apesar do calor do meio-dia.
Ao olhar para a frente, encontrou Jackson sorrindo.
No o sorriso provocador ou desafiador com o qual ela j se acostumara. Nem mesmo um sorriso de flerte. Mostrava-se apenas caloroso e aberto, como uma luz brilhante se derramando sobre ela, deixando-a... completamente feliz.
Por nenhum motivo em particular, devolveu o sorriso.
Mas Jackson no podia ficar. Ela no permitiria. Diria isso a ele, se no naquele instante, logo.
	Duas limonadas. Dois hambrgueres mal-passados, alface, tomate, picles no prato  anunciou Nina, trazendo os pratos.  O ketchup est na mesa... Oh, e molho sabor churrasco com cebolas, Gergia, no prato, como voc gosta.
Gergia agradeceu, mas dispensou o molho de cebola por motivos bvios. Preparou o hambrguer e o cortou ao meio. Ao dar a primeira mordida, notou que Jackson fitava o prato cauteloso.
	Isto no ... tatu, ?
Ela meneou a cabea. Era difcil no rir com a boca cheia.
	Eu s estava brincando!
	Eu sabia que estava brincando  replicou ele.  Eu tambm s estava brincando.
Ele pegou o ketchup e o espalhou sobre o hambrguer. Ento, recostou-se na cadeira e deu uma grande mordida no sanduche.
Dali a pouco, pediam a sobremesa. Gergia escolheu merengue de limo e Jackson, torta de chocolate, o destaque da lanchonete.
Ao experimentar o primeiro bocado, Jackson fechou os olhos de prazer.
	Hum... esta torta  muito boa  elogiou.  Experimente  insistiu, oferecendo uma garfada.
Gergia sempre pedia a torta e conhecia bem a sensao, mas o bocado que Jackson oferecia era tentador demais. Entreabriu os lbios e o fitou nos olhos enquanto ele completava a operao.
	Hum...  Ela suspirou de prazer, testemunha do de leite de Jackson ao liquidar o doce.
Gergia fechou os olhos, saboreou a delcia e ento olhou para o prprio prato. Sentiu um n na garganta... e no por causa da torta.
Ser servida na boca por Jackson Bradshaw era quase to bom quanto sexo, admitia... e o mais prximo que chegaria disso, alertou-se.
	Estava tima  confirmou, sorrindo.
	Estava tima para mim  completou Jackson, insinuante.
Gergia finalmente conseguiu desviar o olhar. Tomou um gole de limonada sem aliviar o calor que sentia. Olhou por sobre o ombro  procura da garonete. Quando finalmente avistou Nina, acenou pedindo a conta.
De volta  caminhonete, Gergia sugeriu que voltassem para casa, caso Jackson precisasse cuidar dos negcios. Mas ele no parecia ter pressa e pediu uma turn pelos pontos tursticos de Sweetwater.
Gergia surpreendeu-se com a tranquilidade dele, mas tinha orgulho da cidade e ficaria feliz em mostr-la a Jackson. Comearam pela rea histrica, onde preservavam a velha cadeia e uma estrutura d madeira baixa que um dia fora um bar. Diziam que o lendrio ladro de bancos Jessie James comeara uma briga ao jogar cartas e acabara due-lando a bala na rua principal. Havia outros pontos de interesse, como a primeira igreja e um salo antigo, onde a associao de pecuaristas se reunia havia cem anos mais ou menos. E, claro, o armazm-geral.
Quando passaram pela loja de Gergia novamente, Jackson diminuiu a marcha para olhar bem para o estabelecimento.
	Voc tem uma bela loja  opinou, sinceramente admirado.   muito... especial.
	Obrigada.  Gergia assentiu.  Era exatamente o que eu queria.
	Como iniciou o negcio?
	Eu morava em Nova Orleans com Noah, perto de tia Ellen.  uma bela cidade, mas eu no me sentia feliz l. Simplesmente, no  para mim. Ento, minha tia herdou um prdio de um parente distante, primo em segundo grau ou algo assim.  Viemos juntas dar uma olhada nele. O falecido tinha uma loja de trocas e produtos usados. Tia Ellen herdou o imvel com tudo o que havia dentro. Enquanto avalivamos o estoque... pilhas de bugigangas, na maior parte... dei inmeras sugestes, e tia Ellen sugeriu que eu me mudasse para c e tentasse tocar o negcio. Foi o que fiz.
	Faz quanto tempo?
	Ah, uns seis anos, pelo menos. Noah tinha dois anos.
	Mudou-se para c sozinha com um beb de dois anos, sem conhecer ningum na cidade? Quantos anos tinha?
	Dezenove. Quase vinte. Mas eu estava acostumada a contar comigo mesma. Foi uma grande oportunidade para mim, considerando as alternativas.
	Quais eram?
	Ser garonete, cozinheira de lanchonete, faxineira, caixa de supermercado, bab de ces, vendedora... bem, cite algum servio ordinrio e eu o ocupei.  A brisa soprou forte e Gergia afastou uma mecha de cabelos do rosto.  A chance de eu ter meu prprio negcio foi como um milagre para mim. E ter a loja resolveu completamente o problema de creche. No comeo, morvamos no apartamento em cima da loja. Deixava Noah dormindo e ficava atenta  bab eletrnica. Quando ele acordava, havia um espao na loja onde podia brincar.
Jackson olhou-a admirado.
	Muito batalhadora.
Gergia deu de ombros.
	Acho que tive de ser.
De repente, Gergia percebeu que eram quase duas e meia da tarde.
	Falando de Noah...  melhor nos apressarmos. A aula acaba daqui a pouco e eu gostaria de estar em casa antes de o nibus passar.
Jackson ficou preocupado com a possibilidade de Noah voltar para casa e no encontrar ningum e insistiu para que fossem busc-lo na escola. No ficava fora de mo e chegariam bem na hora da sada das crianas. Perto do porto junto ao qual se aglomeravam os escolares, Gergia apoiou-se no brao de Jackson e buzinou ao ver o filho. Noah veio correndo. Parecia feliz por ganhar carona especial para casa.
	Oi, amigo!  saudou Jackson.  Suba.
Gergia moveu-se para dar lugar ao filho e viu-se colada a Jackson. O contato entre as pernas era enervante, e ela mal conseguia prestar ateno na narrativa de Noah sobre o dia na escola.
	Ento, Bucky Keller empurrou Mike Geary e ele caiu, bem na lata de lixo, e ficou preso com as pernas para o ar, e todos riram porque a sra. Basset no conseguia tir-lo, e depois os dois foram para a sala da diretora.
	Uau, aconteceu muita coisa!  espantou-se Jackson.
Gergia no prestara ateno. O filho dissera que fora parar na sala da diretora? Impossvel...
	A sra. Basset ficou vermelha e teve de se sentar e se abanar com um livro de espanhol  prosseguia o menino, eufrico.  Estava muito quente na sala hoje. Podamos ir ao riacho nadar...
	H um riacho onde podemos nadar?  indagou Jack son, interessado.
	 o riacho Shelton, no muito longe daqui  explicou Gergia.  No  fundo e refresca num dia quente.
	No podemos ir hoje, mame? Por favor? Deve estar cheio e fresco, aps toda aquela chuva.
	Podemos ir, mame? Por favor?  ecoou Jackson, imitando o jeito bajulador de Noah.
Gergia riu.
	Por que no? Vamos passar em casa e vestir roupa de banho. Vou preparar uma cesta de piquenique.
	Um piquenique? Nossa, no me lembro da ltima vez em que fui a um piquenique.  Jackson se entusiasmava cada vez mais.
	Bem, no ser nada elaborado. Apenas sanduches, acho  esclareceu Gergia, recordando o contedo da geladeira.
	Parece timo.  Jackson deu de ombros.  Desde que no haja nenhum bolo de tatu...  provocou, brincalho.
	No se preocupe  tranquilizou Gergia. 
O riacho era o local perfeito para se encerrar um belo dia, constatou Gergia, enquanto se acomodavam na margem da gua. Ela no podia nadar, por causa do tornozelo, mas ficou na sombra enquanto Jackson e Noah brincavam na gua.
Era emocionante ver Noah com um homem como Jackson. O menino ansiava por uma figura masculina. Um pai brincava com o filho de um jeito que Gergia no conseguia reproduzir. Noah estaria mesmo melhor sem a presena de um homem em sua vida? Evitava relacionamentos romnticos em considerao ao filho... ou simplesmente devido ao prprio temor de ser controlada e dominada por algum?
J anoitecia quando voltaram para casa. Noah sentou-se no meio do banco e adormeceu recostado no ombro de Jackson. Quando Gergia tentou remov-lo, Jackson meneou a cabea.
	Deixe-o assim. Ele no me incomoda.
De volta  casa, Jackson ajudou Noah a ir para a cama e Gergia os acompanhou devagar. O menino estava to sonolento que os dois tiveram de ajud-lo a se despir e entrar debaixo da coberta. O exerccio e a agitao cansaram-no, e ele provavelmente dormiria como uma pedra.
Gergia inclinou-se para beij-lo e surpreendeu-se quando Jackson fez o mesmo. Saram do cmodo sem fazer barulho. No corredor, ela sentiu o corao disparar com a expectativa de dizer boa-noite. Estava dividida entre se voltar para Jackson e se refugiar em seu prprio quarto como um coelho assustado.
	Obrigado pelo dia maravilhoso, Gergia  declarou ele.  No me lembro de quando me diverti tanto.
	Obrigada por ficar e nos ajudar  retrucou ela.
	Pelo contrrio. Acho que voc e Noah  que esto me ajudando  opinou Jackson.
Ele parecia ter se divertido realmente. Estava to diferente da noite em que chegara quela casa, esbravejando. Aps alguns dias preso em Sweetwater, ele mudara de raivoso a relaxado, descontrado. As linhas de expresso suavizaram-se e a pele morena ganhara um tom bronzeado com as atividades externas.
Jackson sorriu e uma mecha dos cabelos castanho-escuros caiu sobre a testa, dando-lhe uma aparncia... juvenil. No geral, pensou Gergia, ele se tornava mais bonito a cada dia...
De repente, sentia-se atrada na direo dele, como se um campo magntico mgico e mstico a puxasse. Engoliu em seco e desviou o olhar. Se no o encarasse, talvez...
	Boa noite, Gergia.  Jackson se inclinou e a segurou
pelos ombros, cobrindo-lhe os lbios com a boca vida.
Gergia tentou se esquivar, mas ao contato o calor se espalhou por seu corpo, e desistiu. Retribuiu o beijo, sorvendo o gosto doce da invaso.
Era absolutamente delicioso.
To encantador, quente e lnguido quanto aquele dia juntos. Gergia sentiu as mos grandes deslizando por seus braos, passando pela cintura, e ento a presso do corpo dele contra o seu. Entregou-se ansiosa, desfrutando o abrao forte. Enquanto Jackson aprofundava o beijo, espalmou as mos contra o trax poderoso.
	Gergia, doce Gergia... No posso apenas abra-la...
um pouco?  sussurrou ele, a boca junto a seus cabelos.
Ela despertou  sugesto, ouvindo os alarmes internos, mas no conseguia se afastar. Uma sensao maravilhosa a mantinha junto de Jackson.
Tentou formular uma resposta sensata, mas os beijos suaves e clidos nos cabelos, no pescoo, no rosto... a distraam.
	Jackson... no podemos... eu no posso...
	Hum... sua pele cheira to bem  sussurrou ele. Inclinou mais a cabea, e Gergia sentiu os lbios firmes no decote da camiseta. Habilmente, ele lhe despiu um ombro e beijou a pele sensvel junto  ala do suti.  Hum... que gosto bom  deleitou-se, provando com a lngua.
	Jackson, por favor...
Sentia-se leve e sem flego. O movimento dos lbios e da lngua dele lhe roubava toda a fora de vontade. Encaixando as mos nos seios, Jackson massageou os mamilos com os polegares, atravs da seda do suti. Ela sentiu as ondas de prazer invadindo o corpo, os joelhos fracos, e buscou apoio nos ombros largos.
	Por favor, pare... ou por favor, continue?  indagou ele, aplicando um beijo quente e mido no vale entre os seios.
	Apenas... por favor...  Gergia suspirou, incapaz de admitir o quanto o desejava tambm. Excitada, enterrou o rosto nos cabelos grossos dele.
Jackson riu. Ela sentiu o hlito quente junto aos seios e ficou ainda mais excitada.
	Eu quero satisfazer voc... De todas as formas  declarou ele, rouco, ardente. Endireitando-se, arrumou-lhe a camiseta e a olhou de cima.  Quero voc agora, Gergia. Se no me quiser, basta dizer.
Gergia no conseguia falar. Nem desviar o olhar. No se lembrava de ter desejado tanto um homem como desejava Jackson. Mais do que desejo sexual ou atrao... por mais forte que aquilo fosse entre eles... havia algo naquele homem que a tocava, que a abalava profundamente. Talvez ele alcanasse um lugar intocado em seu ntimo, aonde nenhum homem jamais chegara. Podia mentir, fingir que resistia  atrao fsica, mas estaria negando que eram mais do que duas almas nuas. Jackson via a verdade em seus olhos, e pareceu-lhe ftil tentar negar.
No era o grande romance por que sempre esperara, conformou-se. Seria um caso ligeiro, uma coliso csmica de dois opostos. Mesmo assim, queria saber como era fazer amor com Jackson e receber seu amor. Precisava saber, precisava ter aquela experincia, ainda que apenas uma vez, ou passaria o resto da vida imaginando. E lamentando.
S que no encontrava as palavras para expressar o tumulto de sentimentos. Por isso, estendeu os braos, tomou o rosto dele nas mos e se ps na ponta dos ps, para beij-lo na boca. Jackson tinha um gosto to bom, to perfeito. Perfeito para ela.
Ele pareceu surpreso a princpio... mas rapidamente retribuiu o beijo com ardor. Quando a abraou, ela sentiu sua fora e desejo. Se ainda tinha alguma dvida ou receio, dissiparam-se.
Antes que ela protestasse, Jackson a ergueu nos braos e seguiu pelo corredor at o quarto dela. L dentro, pousou-a suavemente na cama e fechou a porta. Sem falar nada, ela abriu os braos e ele se estendeu a seu lado.
Jackson reiniciou os beijos, suavemente a princpio, mas no de forma indagadora, hesitante. Agora, parecia saborear Cada sensao, o gosto e o toque dos lbios sobre os dela, como algo raro por que ansiara e de que se privara por muito tempo.
 Ahh... Gergia... voc me deixa louco  confessou, suspirando.
Ela retribua os beijos, febril. Agarrada a ele, apertava os seios contra o trax musculoso. Ele explorava sua boca com paixo. Quanto mais Jackson exigia, mas ela dava, respondendo e prevendo cada movimento. Entreabriu os lbios e suas lnguas executaram uma dana silenciosa, que apurava os sentidos e aumentava o calor entre ambos.
Gergia entrelaou as pernas nas de Jackson e introduziu as mos por baixo da camisa, acariciando as costas largas. Ao mesmo tempo, passou a beij-lo no queixo, no pescoo. Inebriada com o cheiro msculo da pele dele, provocou-o com a ponta da lngua e sentiu o gosto salgado, o gosto de Jackson.
Ele gemeu de prazer, posicionando-se para cobri-la com o prprio corpo. Continuava a beij-la voraz. Era to bom, to perfeito senti-lo assim colado a ela... Entre um beijo e outro, ele a livrou da camiseta e do suti. Habilmente, tirou-lhe a saia tambm.
Jackson se deteve, ento, admirando o corpo quase desnudo sob o dele, os olhos castanho-escuros fulgurando de paixo. Gergia usava apenas a nfima calcinha de renda, e seus cabelos loiros formavam um halo dourado em torno do belo rosto. Jackson ergueu a mo e acariciou a pele clara de seus ombros e seios nus. Os mamilos enrijeceram-se instantaneamente. Excitada com o toque e o escrutnio, ela suspirou e gemeu de prazer. A seguir, fechou os olhos e se contorceu toda, oferecendo-se.
Jackson tomou um seio em cada mo.
 Voc  maravilhosa, Gergia.  Ento, inclinou-se e sugou um mamilo.
Gergia estremeceu ao contato ertico repentino, o corpo tenso como que atingido por um raio... mas de um tipo especial, que trazia consigo um intenso prazer sensual. Entregou-se s sensaes prazerosas enquanto ele provocava vagarosamente os mamilos com a lngua. Sentiu uma onda de prazer aps a outra e, ento, um calor intenso invadiu-a.
Aps acariciar as costas de Jackson, ela procurou o cs da cala jeans. Introduziu a mo entre seus corpos e conseguiu desafivelar o cinto e baixar o zper. Finalmente, tocou no rgo viril, e sentiu o estremecimento de Jackson. Invadiu a cueca e provocou suavemente o membro ereto. Jackson agarrou-lhe o pulso e ergueu a cabea. Atnita, Gergia o encarou e percebeu que estava muito srio.
	Gergia, eu a quero tanto que estou a ponto de explodir. Eu a quero mais do que jamais desejei uma mulher em toda a minha vida... Mas preciso ter certeza de que  isso o que voc quer tambm.
Gergia no se preocupava mais com as dvidas, s existia o desejo. Simplesmente, nunca desejara tanto fazer amor com um homem... e sabia que nunca mais sentiria algo semelhante. Seria apenas uma noite, e agarraria o que a vida lhe oferecia, deixando para sofrer as consequncias mais tarde. Tinha de fazer amor com Jackson, e saborearia e celebraria cada segundo nos braos dele.
	Tambm quero voc... muito  afirmou, louca de desejo.  No me deixe esperando mais...
Jackson respondeu com outro beijo e ento se separou dela, para despir a camisa, a cala e a cueca. Gergia assistiu  cena deleitada. Com a fraca iluminao que vinha da janela, vislumbrou o corpo dele nu e suspirou de prazer. Jackson tinha um fsico impressionante, os ombros largos, o trax musculoso coberto de plos escuros que avanavam at o abdome. Ele voltou para a cama e lhe tirou a calcinha.
Gergia o abraou quando ele se instalou sobre seu corpo novamente, beijando-o e alojando-o entre as pernas. Jackson a penetrou ento. Ela prendeu o flego ao sentir a presso e se agarrou aos ombros dele.
	Tudo bem?  sussurrou Jackson em seu ouvido.
	Sim...  murmurou ela, atordoada.  Acho que... faz muito tempo para mim.
Ele lhe beijou os cabelos e o rosto.
	Foi o que pensei, pelo que me contou.
	Desculpe-me  pediu Gergia, sem saber por qu. Talvez quisesse ser a amante perfeita para Jackson... mas era impossvel.
Ele reagiu de forma surpreendente. Suspirou, afundou o rosto em sua cabeleira e ento se ergueu, fitando-a atentamente.
	Gergia, voc no sabe muito sobre os homens, se acha que estou menos do que espantado em descobrir que escolheu a mim como amante, tendo tantos outros disponveis. Ela acariciou o rosto amado.
	Eu o escolhi... e s voc...
	Vamos devagar  prometeu Jackson.  To suave quanto seda. Eu quero que seja perfeito para voc.
Gergia relaxou e suspirou.
	J est sendo.
Ela ouviu e sentiu a risada suave dele reverberando em seu ser. Fechou os olhos e entregou-se de corpo e alma  sensao maravilhosa de estar com ele. Agarrada aos ombros fortes, lanou as pernas em torno dele e as enrijeceu, para prend-lo. Beijou-o o quanto pde e passou a se mover ritmadamente. Sentia a potncia do corpo movido a paixo e o esforo de Jackson para manter um compasso lento, gostoso. Ela respondia a cada investida poderosa que ele imprimia, numa dana sensual que preenchia seu desejo.
Ento, o ritmo acelerou-se e Gergia rendeu-se ao poder misterioso que Jackson exercia. Ele se introduziu mais fundo, e ela se sentiu embalada num oceano de desejo. O calor lhe atravessava o corpo em ondas, trazendo-lhe sensaes que jamais experimentara nos braos de um amante. Quando seus corpos se fundiram, ofereceu-se mais. O ritmo tornava-se mais selvagem, mais intenso. Ela se entregou com-pletamente s investidas potentes e ao prprio desejo. O prazer era to intenso, to doce e, ao mesmo tempo, agonizante. Ansiava pelo desfecho e, ao mesmo tempo, queria que a sensao durasse para sempre.
Finalmente, estremeceu entre os braos viris e gritou ao atingir o xtase. A seguir, escondeu o rosto junto ao ombro forte de Jackson. O auge do prazer foi intenso e prolongado... como uma adaga de luz traspassando-a, deixando-a trmula com as ondas de energia.
	Fique comigo, querida  pediu Jackson, rouco.
Gergia sentiu mos fortes nos quadris. Jackson a ergueu e se introduziu mais fundo ainda, levando-a a um estado etreo, tamanho o prazer. Ela se agarrou a ele at no aguentar mais. Jackson moveu-se repetidas vezes, dando um grito selvagem e primitivo ao atingir o orgasmo.
Ele se largou sobre Gergia, exausto. Ela experimentou uma sensao reconfortante com o peso do corpo msculo, com o suspiro de satisfao de Jackson contra o rosto. Ele murmurou seu nome repetidas vezes... confuso, espantado, amoroso, gentil.
Gergia fechou os olhos e acariciou-lhe as costas, adorando o toque da pele lisa e quente. Algum j fizera amor com ela daquele jeito... ou dissera seu nome assim? Impossvel recordar, pois todas as lembranas se apagavam naquele momento, anuladas por aquele homem.
Em um ou dois dias, Jackson iria embora, sairia de sua vida to rapidamente quanto surgira. Um cometa que cruzara seus dias solitrios, trazendo um momento maravilhoso de paixo e desejo. Acontecera to rpido que era difcil acreditar que fosse real... e no um sonho.
Jackson no era o companheiro com que ela sonhava... na verdade, mostrava praticamente o oposto sob todos os aspectos. Mas o fato era que os sentimentos antagnicos que nutriam um pelo outro desde que se conheceram haviam conduzido ao desfecho incrvel.
Gergia sabia agora o que sentia por Jackson, exatamente.
Amava-o.
Era simples... e tambm complexo.
Mais contraditrio, impossvel.
Dali a um ou dois dias, provavelmente se despediriam para sempre... ou se veriam to raramente que no adiantava alimentar esperanas. Mas Jackson era o homem que ela procurara a vida toda, consciente e inconscientemente. Seu par perfeito, seu complemento, sua definitiva... embora pouco provvel... alma-gmea. Ele no devia v-la como algo mais que uma amante passageira, mas Gergia agora sabia que Jackson Bradshaw era o nico homem que j tocara seu corao to profundamente.

CAPTULO VII

Na manh seguinte, Gergia despertou novamente com o aroma de caf. Agradvel, pensou. Jackson novamente. To atencioso...
Cobriu a cabea com o lenol.
 Cus, no fiz aquilo realmente... fiz?
Mas os lenis amarrotados confirmavam que no imaginara as cenas em que ela e Jackson se amavam de forma ardente e passional. No foram fantasia. Nem sonho.
Como iria encar-lo? Ele devia estar fazendo o pior juzo dela, aps comprovar as suspeitas que tinha a seu respeito ao chegar  cidade. No mnimo, Jackson devia pensar que ela se entregara a ele para ver se conseguia seu dinheiro.
No, ele no pensaria isso, assegurou a si mesma. No recordando a paixo com que haviam se amado naquela noite. Jackson se revelara um amante extraordinrio, dando-lhe ternura e paixo sem medida. Era fato que ele no falara muito. Nenhum dos dois falara muito. No parecera necessrio, concluiu, enrubescendo.
Admitira os sentimentos profundos que tinha por ele... sentimentos que sabia no serem correspondidos... e sentia-se mais constrangida por isso.
Deixou a cama e foi tomar um banho. O tornozelo s incomodou uma ou duas vezes ao caminhar pelo corredor. Noah j descera, constatou, ao ver seu quarto vazio. A presena do filho  mesa do caf da manh lhe facilitaria a vida. Dos dois, provavelmente.
Assim que Noah sasse para ir  escola, conversariam. Precisavam muito conversar.
Na cozinha, encontrou o filho j pronto para tomar o nibus escolar. Jackson preparara seu desjejum, e os dois se despediam um do outro. Pelas ltimas palavras, percebeu que Jackson planejava voltar para Nova York naquela manh.
Por mais que ela desejasse a partida de Jackson, a notcia foi um choque. Principalmente aps a noite anterior.
Noah parecia triste, porm resignado. Apesar de seus oito anos, agia da forma mais adulta possvel. Gergia se compadeceu do filho.
	Quando eu tiver um microcomputador, poderemos trocar e-mails o tempo todo, Jackson.  comentava Noah.  Vai ser legal, no?
	Se vai  concordou Jackson.  Quando voc vai ganhar um?
	Bem, mame diz que est poupando e talvez compre no Natal  explicou Noah, no muito entusiasmado.
	Oh, entendo.  Jackson assentiu.  Bom, podemos conversar por telefone' lembrou.  Tambm  legal.
	Acho que sim...
Jackson fitou o menino e esfregou o queixo. Gergia reconhecia o gesto de reflexo. Em que ele pensava? No quanto ela era pobre? No quanto era esperto em abandonar me e filho o quando antes?
	Talvez possa ir a Nova York  considerou Jackson.  Voc gostaria?
	Visitar voc em Nova York? "Legal"!
Mais do que isso, pensou Gergia. Totalmente impossvel.
Sentiu o sangue ferver. Uma coisa era o homem se aproximar dela, sabendo que no havia futuro. Ambos eram adultos e ela resistiria ao golpe.
Mas confundir um menino de oito anos, garantir que manteriam contato e at afirmar que se visitariam um dia... bem, parecia cruel a Gergia. Controlou-se para no reagir desproporcionalmente. Talvez Jackson fosse apenas uma daquelas pessoas que tinham dificuldade para se despedir e fingiam que o relacionamento continuaria, mesmo sabendo que no. Mas ela, como me, tinha de pensar em Noah.
	Bom dia a todos!  saudou Gergia, interrompendo a conversa de propsito. Sorriu para o filho e ento encarou Jackson. O olhar dele era caloroso e receptivo, mas ento ela viu sinais de melancolia.
	Como est o tornozelo, Gergia?
	timo. Quase no di.  Como no pretendia sair, ela vestira short de sarja, camiseta listada e calara tnis. Serviu-se de caf numa caneca e se recostou no balco para saborear o revigorante.
	Mame, Jackson vai embora hoje. H uma emergncia no escritrio. Voc sabia?
	 novidade para mim  replicou ela, impassvel.
Jackson desviou o olhar, parecendo constrangido.  Parece grave.
	E   assegurou Jackson.
E muito conveniente, pensou Gergia. Era mais provvel que ouvisse o alarme de seu sistema de pnico de solteiro convicto.
Ento, tentou no pensar to mal-de Jackson. Sempre soubera que aquele envolvimento seria uma aventura isolada, no o comeo de algo... srio. Talvez fosse melhor que ele partisse logo. Para ela e para Noah.
	Um problema complicado surgiu com um de nossos clientes mais importantes  explicou Jackson.  Recebi o e-mail hoje cedo.  algo que no posso conduzir a distncia.
Gostaria de ficar mais. Para ajud-la, quero dizer. Mas preciso voltar.
Ele implorava com o olhar que ela acreditasse. Gergia tomou mais um gole de caf, pousou a caneca e deu de ombros.
	Se tem de voltar, pacincia.  Decidiu ser franca.  Estava pensando mesmo que seria melhor voc ir emjbora hoje.
De fato, Gergia pensara nisso durante o dia anterior... antes de fazerem amor. Mas no depois. S que no revelaria isso.
	Mas no quero parecer ingrata, aps toda a sua ajuda. E Noah e eu nos divertimos, mostrando-lhe os pontos tursticos. Mas realmente no posso despender outro dia. H tanto a fazer na loja... e tudo mais...  Ela se interrompeu. No suportava o olhar de Jackson. Sentia uma dor aguda no peito.
	Claro, eu entendo, Gergia  declarou ele, melanclico.
Enquanto absorviam as palavras um do outro, Gergia viu a expresso de Jackson mudar de aberta e amistosa a fechada e fria. Ele a olhava desconfiado e cruel, como ao se conhecerem.
Ela o magoara com seu pequeno discurso? Bem, talvez tivesse o ego um pouco ferido naquele momento. Mas Gergia tinha certeza de que ele no estava nem cinquenta por cento to magoado quanto ela.
	Noah... olhe a hora  alertou Gergia.   melhor ir agora, no vai querer perder o nibus.
	Est bem  concordou o menino, relutante. Pegou a mochila e a lancheira.
Jackson levantou-se. Quando o menino voltou-se para dizer adeus, deu-lhe um forte abrao.
	At mais ver, Jaekson. Mantenha contato.
	Claro que sim, amigo! Espere para ver. Logo ter notcias minhas.
Gergia acompanhou o filho at a varanda. Ele estava quase grande demais para ser beijado e abraado, mas, naquela manh, quando ela repetiu o gesto, submeteu-se sem reclamar.
Jackson a aguardava na sala.
	Oua, eu realmente no queria partir desse jeito, Gergia.
	De que jeito?  indagou ela, inocente.
	Voc est to... zangada comigo. Eu realmente preciso voltar para Nova York. No  mentira... ou alguma desculpa barata na manh seguinte.
	Eu nunca disse que era.
	No precisava dizer, Gergia. Sei que  exatamente o que voc est pensando.
Ela meneou a cabea.
	Em absoluto. Acho s que voc est se sentindo culpado.
	Culpado?  Ele franziu o cenho.  Por que eu me sentiria culpado?
	Nada. Nada mesmo.  Gergia deu de ombros. Cruzou os braos e encarou-o a distncia.  Eu s disse que voc age como se sentisse dessa forma.
Jackson estreitou o olhar.
	Voc est me confundindo  reclamou, meio desesperado.  Oua, a noite passada foi maravilhosa. Perfeita, acho... Por que no podemos guardar... essa boa lembrana?
Essa boa lembrana. Gergia gostou da expresso. Nunca ouvira antes. E teve de enfrentar a verdade dura que escondia no corao. Secretamente, desejou que a noite anterior tivesse sido o comeo de algo verdadeiro e srio entre ela e Jackson. Parecia que partilhavam os mesmos elementos necessrios para dar certo... e at mais. Mas, naquele momento, tinha de enfrentar a realidade. Uma noite de amor... por mais maravilhosa e perfeita... no bastava para derrubar as defesas de Jackson. Ele fugia assustado, de volta a sua vida solitria em Nova York, e ela no podia fazer nada.
Absolutamente nada. Nem ficar zangada ajudaria.
Gergia suspirou e massageou a testa. Sentia o incio de uma dor de cabea e no eram nem nove horas da manh.
	Gergia... o que foi?  indagou Jackson, preocupado.  O que foi que eu disse?
	Nada.  Ela meneou a cabea, no suportava encar-lo.  Voc no disse nada. Nada que eu no esperasse, de qualquer forma.
Ela reuniu foras e o fitou.
	Muito bem, vamos guardar a boa lembrana... Sente-se melhor assim?
Jackson expressava pesar.
Ouo as palavras, mas, de alguma forma, no soam sinceras, vindas do corao.
	Vamos deixar meu corao fora disso, est bem?
Ele pareceu se resignar.
	Como queira.
Jackson aproximou-se, constrangido, e a fitou como se quisesse dizer algo mais. Algo srio e importante. Por um segundo, Gergia pensou que ele a abraaria e prendeu o flego.
Mas ele no se moveu.
Ouviu-se um som de automvel. Gergia olhou pela janela. Era o guincho da locadora.
	Parece que sua carona chegou.
Jackson estendeu a mo e tocou-lhe o rosto. Estudou as linhas como se tentasse memoriz-las at o ltimo detalhe. O toque era leve e carinhoso, por isso, apesar do que dissera antes, Gergia sentiu o corao se abrindo como uma flor. Como, em apenas trs dias, aquele homem passara a significar-lhe tanto? No sabia... mas era verdade. Haviam estabelecido uma liga|o poderosa... tudo o que realmente importava entre um homem e uma mulher. Era algo muito maior do que tudo o que ela conhecera antes. Podia-se procurar a vida toda e nunca experimentar o que eles haviam descoberto juntos na noite anterior, nos braos um do outro, aps conversarem sobre assuntos comuns... seu passado, seus sonhos para si mesma e para Noah. Sentia-se to completa com Jackson... to em sincronia com ele. Sentia-se aquecida e feliz s com seu olhar.
Por que tinha de acabar daquela forma? Parecia um desperdcio. Um desperdcio desnecessrio. To rpido e idiota.
Com tristeza, Gergia percebeu que ambos temiam se arriscar e dar outro rumo  situao.
	Voc com certeza no  o que eu esperava, Gergia Price  declarou Jackson.
	Nem voc, Jackson Bradshaw  rebateu ela, desolada.
Ele se inclinou para a frente e a beijou de leve nos lbios.
Gergia sentiu vontade de abra-lo, de enterrar o rosto no ombro largo e segur-lo com fora para que no partisse. Queria revelar que sua declarao desdenhosa fora uma encenao e implorar perdo. Mas permaneceu esttica quando ele a liberou.
Jackson pegou sua pasta, a maleta com o microcompu-tador porttil e despediu-se:
	At mais ver, Gergia. Cuide-se... e de Noah.
	At, Jackson.
Gergia foi at a porta aberta e viu Jackson subir na cabine do veculo-guincho. Ele acenou. Ela acenou de volta. Quando percebeu, mordiscava com fora o lbio inferior e tinha a viso borrada devido s lgrimas. Voltou-se rapidamente e fechou a porta.
Noah encontrou-se com a me na loja aps a escola. Gergia percebeu que ele estava deprimido com a partida de Jackson. Ela tambm apresentava os mesmos sintomas, mas disfarava. Por causa de Noah, comportava-se de forma alegre e animada, mas no conseguia estimular o menino. A conversa de Noah sempre inclua Jackson, embora Gergia tentasse mudar de assunto. Durante o jantar, em casa, o menino reclamou da falta de microcomputador, sem o qual no podia trocar e-mails com quem quisesse, tendo de se contentar com as velhas cartas escritas  mo. Gergia garantiu-lhe que cartas ainda eram timas e ele at poderia enviar junto alguns de seus desenhos fabulosos. Noah consolou-se um pouco. Sempre que ela achava que o tpico Jackson se encerrara, o menino verificava as horas e indagava se Jackson j estava em Nova York e o que estaria fazendo.
	Ele deve ter ido direto para o escritrio  imaginava o menino.  Sabe, devido  emergncia.
Gergia concordou e ofereceu sobremesas variadas. Finalmente, o assunto pareceu arrefecer e ela imaginou se o filho comeava a se recuperar. Seu alvio durou s at a hora de coloc-lo na cama.
	Acha que Jackson vai mesmo me mandar aquela sur presa, como prometeu, mame?
	Surpresa? Que surpresa?
	Sabe, quando eu ganhei a partida de "Teste o seu Q.I." e Jackson disse que me mandaria um prmio quando voltasse para Nova York.
	Oh... claro.  Gergia lembrava-se da promessa. Ele prometera,  no  prometera?  Impulsivamente,  talvez.    Bem... Jackson  muito ocupado, Noah. Muito ocupado  reforou.  Tenho certeza de que ele vai mandar, se se lembrar... mas, para ser franca... ele pode no cuidar disso de imediato, entende?
	Oh, claro. Eu sei.  Noah assentiu.  No  como se eu esperasse que ele fosse correndo  loja de brinquedos assim que chegasse em casa. Quero dizer, pode levar algum tempo. Como talvez... na semana que vem, certo?
	Talvez  concordou ela.  Talvez a surpresa venha... logo.
Algum dissera uma vez que "logo" significava em algum momento do ano seguinte para os adultos e nos prximos cinco minutos para as crianas...
Gergia embaraou os cabelos do filho, rezando para que Jackson se lembrasse da promessa. Seno, Noah ficaria muito decepcionado. Para um garoto to inteligente, no era a surpresa... o presente em si... que importava, mas o fato de o amigo se lembrar dele.
Ele se lembraria?, imaginou Gergia. S o tempo diria... e seria uma longa espera, para ela tambm. Principalmente se Noah no parasse de falar em Jackson. Seria difcil esquec-lo normalmente, mas, com o filho falando dele o tempo todo, seria impossvel. Noah falava de Jackson como se fosse um super-heri... sem mencionar que se revelara um amante excepcional.
Na primeira noite aps a partida de Jackson, Gergia chorou no travesseiro, emitindo soluos sofridos. Tentara se controlar, mas ao se deitar e sentir a leve fragrncia da colnia dele, no aguentara.
Os dias se passaram e Noah falava cada vez menos de Jackson. Talvez estivesse se conformando com a dura realidade da amizade que terminava aps a separao, pensou Gergia. Talvez o filho compreendesse que Jackson no cumpriria a promessa.
Quanto a ela, procurava ocupar-se. Chegava  loja cedo e saa tarde, limpava armrios, gavetas e cantinhos que no eram limpos havia anos.  noite, aps o jantar, trabalhava no jardim, arrancando ervas daninhas e cavoucando o solo at sentir braos e pernas doloridos. Mesmo com o corpo modo, ainda precisava de um banho quente para conciliar o sono... com o martrio adicional de se lembrar de Jackson toda vez que entrava e sada da banheira.
Alis, tudo lembrava Jackson. Costumava almoar na lanchonete todos os dias, mas, desde que estivera l com ele, evitava o local e levava marmita. Escrever no lhe proporcionava distrao e escape, tampouco. Montava uma nova histria, outro mistrio com assassinatos num spa requintado. Sempre que se sentava para escrever, porm, flagrava-se fitando a pgina em branco, pensando em Jackson, recordando cenas favoritas da breve convivncia com ele... e da noite gloriosa. As vezes, Gergia imaginava se teria feito diferena Jackson saber que ela publicara dois livros. Talvez devesse ter revelado a ele sua vida secreta, considerando que ele desconfiava de qualquer mulher que no pertencesse a sua classe social, que ele temia as oportunistas que viviam atrs de seu dinheiro. Inmeras vezes, quisera contar-lhe sobre seu sucesso literrio, no entanto, ressentida com a atitude esnobe e as ideias preconceituosas dele a seu respeito, optara por guardar o segredo.
De forma irracional, percebia agora, quisera que Jackson a desejasse a ponto de no se importar com sua aparente inadequao a ele. Descobrir que ela fazia uma carreira respeitvel como escritora, vislumbrando mais sucesso no horizonte... Bem, de algum modo, isso a transformaria aos olhos dele. E poderia ter facilitado um entendimento.
Teimosa, contudo, quisera que Jackson a amasse por ela mesma. No por algum rtulo ou identidade superficial que impressionaria seus amigos preconceituosos. Gergia no seria mais aquela pobre me solteira de Sweetwater, no Texas, dona de uma loja de quinquilharias com um filho ilegtimo. No, ela seria uma escritora, com livros publicados. Isso mudaria tudo, certo?
Errado. Totalmente errado. Gergia queria que Jackson a amasse apenas por ela ser Gergia. A mulher que ele conhecera por acaso e por quem se apaixonara. Queria que ele amasse essa mulher a ponto de no poder viver sem ela. No importava sua formao ou situao. E teria de bastar. s vezes, Gergia pensava em escrever uma carta... um bilhete, algo alegre e despretencioso. No se declararia, nem o pressionaria, nada disso. Apenas deixaria claro que, apesar do constrangimento com se despediram, sentia saudade, e sabia que continuaria sentindo.
Seria to ruim? Jackson era o tipo dominador, que gostava de estar no controle. Cus, estavam no sculo vinte e um! Uma mulher podia tomar a iniciativa nesses assuntos, hoje em dia. Ela no tinha de permanecer encarcerada no alto de uma torre, tal^qual donzela de conto de fadas, esperando que um prncipe encantado idiota aparecesse para resgat-la. Ou tinha?
Ento, imaginou Jackson em Nova York, no gramado de sua manso, em suas roupas de grife. Podia v-lo no escritrio, planejando uma manobra jurdica astuta, no topo de um arranha-cu com fachada de vidro, cercado de mveis modernos, com uma vista deslumbrante. E, aps o dia de trabalho... bem, havia as mulheres, Gergia tinha certeza. Mulheres educadas, profissionais e maravilhosas. Jackson podia escolher, sem dvida. Ficou imaginando a vida dele longe de Sweetwater at sentir uma dor insuportvel no corao e procurou afastar aqueles pensamentos.
No, no lhe escreveria. Nem mesmo um carto-postal. No escreveria nem telefonaria. O tempo que passaram juntos, a ligao especial que ela sentira, bem, no significaram nada para ele. Nem mesmo o ato de amor. Fora maravilhoso.
Perfeito, segundo ele mesmo. Mas servia s para guardar na lembrana,- como uma foto perfeita num lbum. Gergia nunca se adequaria  vida real de Jackson Bradshaw, que ela sequer podia imaginar.
Ele entraria em contato um dia?
Era pouco provvel.
Ela o esqueceria?
Definitivamente, no. 
CAPITULO VIII

Trs semanas aps Jackson partir do Texas... e pelo menos uma semana aps Noah ter parado de falar incessantemente dele... Gergia e o filho encontraram duas caixas grandes na varanda da frente ao chegar em casa.
Ambas estavam endereadas a Noah e o remetente era uma empresa de alta tecnologia que Gergia desconhecia. As caixas eram pesadas e Noah mal conteve a euforia enquanto as carregavam para dentro.
Me e filho abriram^os volumes e descobriram que se tratava de um microcomputador, completo, com monitor de vdeo e impressora. Gergia no sabia nada sobre microcomputa-dores, mas, pelo que aprendera em suas pesquisas visando a compra do presente de Natal para Noah, aquele era um modelo de ltima gerao. Um modelo que poderia acompanhar Noah at a universidade. Ou assim ela esperava.
Finalmente, num pequeno envelope branco perdido na pilha de manuais de instruo, encontraram um bilhete do emitente.
Querido Noah,
Aqui est a surpresa, amigo. Desculpe-me pela demora em envi-lo, mas no esqueci nossa aposta. Agora, poderemos conversar por e-mail. Talvez me conceda uma revanche virtual de "Teste o seu Q. I". Com amor, Jackson
	Viu,  de Jackson!  exclamou o menino, exultante.  Eu sabia que era dele!
Gergia pegou o carto. Sabia que Jackson tinha recursos, mas fora generosidade dele enviar um presente to caro a Noah. Atencioso, pensando na inteligncia excepcional de Noah, era sua maneira de ajud-lo a desenvolver seu potencial. No importava que Jackson no tivesse telefonado desde que se fora. Estava agradecida por ele cumprir a promessa que fizera a seu filho.
	Posso ligar para ele, mame, para agradecer?  perguntou Noah, excitado.  Eu devia dizer a ele que o presente chegou e tudo o mais.
	Acho que sim  concordou Gergia.  Mas para onde vamos ligar? Eu no tenho o nmero do telefone dele.
	Eu tenho.
	Tem?  Ela o fitou incrdula.
Noah assentiu.
	Jackson me deu um carto de visita dele, na manh em que foi embora. Disse que eu podia ligar numa emergncia... ou se quisesse apenas conversar.
	Oh, eu no sabia  respondeu Gergia, honesta. Jackson no lhe oferecera seu carto ao partir. Ela o teria aceito, ou rasgado e atirado os pedacinhos em seu rosto? Suspirou. No fora muito gentil com ele naquela manh, fora? Constrangida, esperava no ser chamada ao telefone quando Noah ligasse. Talvez o menino s conseguisse deixar um recado com a secretria ou algo assim.
Noah teclou o nmero e Jackson atendeu imediatamente. Gergia ouviu a conversa alegre sobre o microcomputador. Ento, o filho lhe estendeu o fone e insistiu para que falasse.
	Jackson quer conversar com voc.
Gergia agitou a mo frentica.
	Diga que no estou aqui!  sussurrou.  Diga que estou ocupada.
	Ele j sabe que est aqui, mame  respondeu Noah, alto.  Tome. Tem a ver com tia Faith  acrescentou.
	Tia Faith? Por que no disse logo?  Gergia agarrou o fone.  Jackson, ainda est a?
	Estou bem aqui, Gergia. Onde sempre estive  respondeu ele, tranquilo.
Era bom ouvir a voz dele. A princpio, era quase como se sonhasse, pois j quase esquecera o timbre grave e amvel que tanto a abalara. Deu as costas ao filho e passou a falar bem baixo:
	Como vai?
Gergia ouviu um suspiro. Jackson suspirava de saudade dela? Ou porque a pergunta o irritava por algum motivo? Talvez estivesse apenas cansado. Devia estar no final do expediente.
	Podia estar pior, imagino  replicou ele, finalmente.
"Eu podia estar pior tambm", pensou ela. "Se algum tivesse cavoucado meu corao com um canivete, por exemplo".
	Oua, s queria lhe contar que finalmente encontrei Will e Faith  informou Jackson, reanimando-se.  Esto nas ilhas Galpagos, acredita?  Riu.  Will conseguiu algum tipo de verba para estudar os rituais de acasalamento dos pinguins...
	E Faith est tirando as fotos  completou Gergia.
	Oh, ento voc sabia?  Ele parecia desapontado por no ser o primeiro a contar a novidade.
	No, no sabia  esclareceu ela.  Apenas deduzi a parte de Faith no projeto. Recebi um carto postal deles, enviado da Guatemala  confessou.  Mas... bem, achei melhor no lhe contar.
	Entendo  afirmou Jackson.  Temia o que eu pudesse fazer.
Gergia no sabia o que responder.
No carto postal, Will e Faith informavam que haviam se casado, estavam felizes e esperavam que Jackson no tivesse lhe causado muito problema. A irm prometia entrar em contato assim que estivessem instalados na locao do prximo trabalho, sem mencionar onde ou quando. Talvez temessem que Jackson arrancasse dela a informao sobre o paradeiro deles.
Bem, guas passadas. Jackson nem parecia mais zangado com o casamento do irmo.
	Bem... no parece to inconformado com a escolha de seu irmo. Significa que aprendeu a no se meter na vida dele?
	Hum...  grunhiu Jackson, e Gergia quase riu alto.  Eis a questo.  Fez pausa.  Aprendi uma lio, sim.  E foi voc quem me ensinou, Gergia... Mas, por tudo o que  sagrado, no posso dizer qual foi.
Gergia sentiu um n na garganta. Talvez aquilo fosse o mais prximo a que Jackson chegaria de admitir que ela significara algo, afinal. E ela teria de se contentar.
	Bem... Quando descobrir, volte para mim  desafiou. Volte para mim, de qualquer jeito, desejou completar.
Mas conteve-se. Era orgulhosa demais para demonstrar seus sentimentos, ou pedir a Jackson que mantivesse contato quando ele obviamente no queria. Ele podia ter telefonado muito antes, se quisesse.
	Noah quer falar com voc novamente, vou passar o telefone  informou,  guisa de despedida.  E obrigada pelo microcomputador. Voc foi muito generoso e... bem, no precisava.
	Eu quis  justificou Jackson.  E fico contente que tenham gostado.
O tom gentil e carinhoso foi demais. Gergia despediu-se rpido e passou o fone ao filho como se fosse uma batata quente.
Ansioso para falar do microcomputador com Jackson, Noah nem notou a perturbao da me. Gergia procurou recompor-se e ouviu o filho formular todas as perguntas que ela no ousara.
	Quando vem visitar a gente, Jackson?
Gergia franziu o cenho. Sabia que Jackson se esquivaria, gentil, sem se comprometer.
Vou sentir saudade  declarou Noah.  Mame tambm  acrescentou.
Ela meneou a cabea, desanimada.
	Muito bem, Noah. Acho que devia liberar Jackson agora. Ele ainda est no escritrio.
O menino resignou-se.
	Bom, at mais ver, Jackson. Mame disse que tenho que desligar. Ela no quer que eu tome mais o seu tempo.
 Ouviu o interlocutor.  Est bem. Direi a ela. No, no vou me esquecer.  Despediu-se e desligou.
	Dizer o qu?  indagou Gergia, mos na cintura.
	Jackson mandou dizer que sente saudade de voc tambm.
	Oh... que gentil.  Disfarando o embarao, ela imaginou qual o estado de esprito dele ao declarar aquilo. Falara em tom... amigvel? Triste? Emocionado? Desolado?
Mas no podia perguntar ao filho. E ela j tinha todas as respostas de que precisava. Jackson no lhe telefonara em trs semanas e, havia pouco, no lhe dissera que sentira saudade nem que queria? manter contato.
Gergia seria idiota se ainda tivesse esperana de que ele se importava. Uma idiota completa.
Duas semanas depois, a embarcar num avio para Nova York com o filho, Gergia jurou que no procuraria Jackson enquanto estivessem l. Seria humilhante demais se atirar nos braos dele. Cus", ainda tinha orgulho, no?
Aps o telefonema no dia da chegada do microcomputa-dor, ela no falara mais com Jackson. Noah contara que trocavam e-mails, mas a amizade deles no tinha nada a ver com ela. Era gentil da parte de Jackson manter contato com o menino, e o afeto entre os dois se preservaria sem seu envolvimento. Devia estar grata por Noah ter alguma influncia masculina em sua vida, finalmente. Para si mesma, entretanto, no esperava mais nada.
Perdera Jackson, para sempre. Restava-lhe convencer o corao desse fato. Pelo menos, sua carreira de escritora deslanchava, consolou-se. Dois dias antes, sua editora, Liz, telefonara, to excitada que mal conseguia falar. Seu ltimo livro, lanado na semana anterior, recebera resenhas maravilhosas dos crticos, e ela at fora indicada para concorrer a um prmio oferecido pela associao de autores de mistrio. A editora estava ansiosa em tirar vantagem de todo aquele entusiasmo na imprensa. Queriam promov-la, agen-dar entrevistas e noites de autgrafos. Em Nova York, iria se reunir com o pessoal do marketing e da publicidade para discutirem os planos.
	Cus, estou assustada  confidenciara Gergia a Maria, ao deixar a amiga encarregada da loja.  E se no me sair bem?
	Vai se sair tima  afirmara Maria.  Sabe por qu?
	Por qu?
	Porque voc  especial, querida. Um artigo genuno.
Eles acham que tm tudo l em Nova York, mas no tm voc!
Gergia entendera. Mas no totalmente. Todavia, no argumentou. Pois bem, era especial. Um artigo genuno. Talvez um dia Jackson enxergasse isso tambm...
Durante todo o vo, enquanto Noah lia livros e brincava com um videogame porttil, Gergia debateu-se com os prs e contras de entrar em contato com Jackson. Enquanto preenchia a ficha para se registrar no hotel, ainda no tomara uma deciso.
Mas seu filhinho Noah j a atropelara. Antes de se afastarem do balco da recepo, sussurrou-lhe:
	Pergunte se h algum recado.
	Recado? Mas de quem voc est esperando recado?
Gergia sentiu um frio na barriga. Noah no contara a Jackson sobre a viagem... contara?
	De Jackson, claro  respondeu o menino.  Quem mais conhecemos em Nova York?
	Jackson? Noah, voc no... o avisou!
	Claro que avisei. Qual  o segredo? Pensei... bem, pensei que ficaria feliz em v-lo novamente.
	No  isso  admitiu Gergia.  Eu ficaria... mas...  Suspirou e no terminou a frase. Como poderia explicar seu drama ao filho de oito anos? Ela mesma mal entendia a questo.  Voc contou a ele por que viramos para c?
Noah deu de ombros.
	Mais ou menos. S disse que voc viria a negcios.
Gergia aliviou-se. Por algum motivo, sentia a conscincia pesada por no ter revelado a Jackson que era escritora. Gostaria de lhe contar pessoalmente. A seu modo, quando fosse oportuno.
Agora, parecia inevitvel.
Indagou ao funcionrio do hotel se havia recados para eles. Havia um, mas no era de Jackson. Apenas a editora Liz confirmava um jantar, informando que Mark Beckman, do departamento de publicidade, a levaria a um restaurante naquela noite.
Bem, isso adiaria um possvel encontro com Jackson, considerou, enquanto atravessavam o saguo. Um mensageiro j subira com a bagagem.
	Qual era o andar mesmo?  indagou ao filho, enquanto aguardavam um elevador.
	Vigsimo terceiro  respondeu Noah.
	No, no acho que era o vigsimo terceiro...  Gergia fitou o carto magntico que servia de chave.
No viajava muito e era difcil entender aquelas chaves que lembravam cartes de crdito e no indicavam o nmero do quarto. Enquanto procurou o documento de registro na bolsa, distraiu-se do filho e, quando ergueu o olhar, viu que ele se afastara, correndo pelo amplo piso de granito.
	Jackson!  gritava o menino.  Aqui!
Ento, Gergia viu Jackson caminhando apressado pelo saguo ao encontro de Noah. Atiraram-se nos braos um do outro. Jackson ergueu o menino no are rodopiou com ele.
Gergia emocionou-se. Quase se esquecera de como ele era bonito. Estava mais lindo do que nunca, em terno azul-marinho elegante, camisa branca e gravata de seda com estampa vermelha.
Finalmente, ele a viu, e ela deixou de sorrir.
	Estava passando em frente e imaginei se j tinham chegado  comentou ele.
Noah devia ter-lhe transmitido o itinerrio completo, concluiu Gergia, incluindo o nmero do vo e o hotel em que se hospedariam.
	Aqui estamos  respondeu, simplesmente, na falta do que dizer.
	J se registraram?  indagou Jackson.
Ele a fitava ansioso. Como se fosse mord-la, pensou Gergia.
	J.  Gergia sentiu-se zonza, como se estivesse sonhando.
	Como foi o vo?
	timo  respondeu Gergia. Se ele perguntasse sobre o tempo, ela gritaria!
	Que bom.  Jackson sorriu sem graa.  Mas... voc est tima, Gergia  acrescentou.
	Obrigada. Est sendo gentil.  Ela enrubesceu. Mas era verdade. Estava tima. Mesmo aps horas sentada dentro do avio. Trajava conjunto de Unho cinza composto de saia longa e jaqueta. O corte reto, sem detalhes, era sofisticado. Completara o visual com um broche antigo de opala rosa na lapela e pequenos brincos de prola.
	Bem... aceitam uma bebida ou um lanche?  ofereceu Jackson.  Posso lev-los para jantar?
	Podemos, mame?  indagou Noah, pulando junto dela.  Por favor?
Jantar... J era to tarde?
Gergia olhou as horas. Precisava se aprontar para o jantar com a editora e o pessoal da publicidade, e no tinha muito tempo.
	 muita gentileza sua nos convidar, Jackson...
	Mas?
	Mas j tenho um compromisso agendado. Infelizmente, no posso desmarcar.
Jackson parecia constrangido por ter imaginado que ela estaria livre.
	Claro, eu entendo.
Noah fez bico.
	Ah, me, no podemos sair com Jackson?
	Lamento, querido. Talvez em outro dia.
	Claro, num outro dia  prometeu Jackson. Deu de ombros, como se no se importasse.
Mas ela via nos olhos dele que se importava. Jackson ansiara por aquela pequena reunio, esperara muito por este momento. Sentiu reacender a esperana.
	Bem, tenho algum tempo ainda antes do meu... compromisso.  Escolhia as palavras com cuidado.  No quer subir conosco? Podemos pedir um lanche ao servio de quarto. Estamos numa sute. Deve ser bonita e espaosa.
	Uma sute, neste hotel?
Jackson devia estar imaginando como ela arcaria com a despesa, mas pelo menos teve a educao de no perguntar.
	Estou para fechar um bom negcio  explicou Gergia, sem dar detalhes. Era um negcio maravilhoso. E a casa de publicaes pagava todas as despesas.
O elevador chegou.
	Ento, vamos subir?
	Por que no?  replicou Jackson.
A sute era linda. Muito impressionante, pensou Gergia. Pediu refrescos ao servio de quarto.
	Que mximo!  exclamou Noah. Subiu numa das duas camas e ficou pulando.
Logo o menino descobriu uma televiso grande, escondida num armrio em estilo provenal.
	Uau!  Entusiasmou-se, ao experimentar o controle remoto.  Mame, veja quantos canais!
Gergia olhou desalentada para Jackson.
	Era o que eu temia. Como vou entret-lo em Sweet-water depois disto?
Ele riu.
	Oh, deixe-o se divertir. Logo se enjoa. Noah  inteligente demais para ficar plantado diante da televiso.
Gergia concordou. Acomodaram-se na saleta, longe do som da televiso. Jackson comentou sobre os e-mails engraados de Noah, os quais levava ao escritrio para mostrar ao pessoal. Gergia imaginou se aquele seria o momento certo para contar-lhe sobre o verdadeiro motivo de sua viagem a Nova York. As razes por ter mantido segredo lhe pareciam idiotas agora. Prova de imaturidade. Reuniu coragem e esperou pacientemente o momento certo para mudar de assunto.
Mas, quando ia falar, a campainha tocou.
Gergia se levantou para atender. Esperava o servio de quarto, mas era o mensageiro com flores. Indicou onde pousar o arranjo e deu uma gorjeta ao homem. Jackson assistiu a toda a cena e ento desviou o olhar rpido, fingindo desinteresse.
Gergia abriu o carto e leu. Era da editora, dando-lhe as boas-vindas a Nova York. Guardou o carto no bolso e voltou para junto de Jackson.
	Belas flores  comentou ele.
	Sim, muito bonitas  concordou ela. Evidentemente, no contou de quem eram.  Mas... voc me falava dos e-mails de Noah.
	Oh, sim. Ele me mandou um muito engraado na semana passada...
A campainha tocou novamente. Gergia levantou-se de novo para atender. Desta vez, era o servio de quarto com os refrescos. Quando o garom saiu, Jackson preparou aperitivos. Gergia sorveu um gole, mas ainda no se sentia preparada para confessar seu segredo.
Jackson olhou para o relgio.
	Espero no estar atrasando voc, Gergia. A que horas  o seu... compromisso?
Gergia viu as horas tambm. Eram quase seis e meia.
Algum chegaria em poucos minutos para lev-la ao restaurante.
	Desculpe-me, Jackson. Tenho de me aprontar. Voc pode ficar, claro. Por que no conversa um pouco com Noah?
Gergia levantou-se do sof e foi para o quarto. O vestido de seda preto. Devia t-lo tirado da mala e estendido para alisar as dobras, pensou, aborrecida.
Da saleta, Jackson indagou:
	Noah vai sair com voc?
	Noah? Claro que no  respondeu Gergia, esticando o vestido.  Ele vai ficar com uma bab.
	Uma bab?  Jackson parecia contrariado.  Acha prudente?
	 uma amiga de uma amiga  tranquilizou Gergia. Na verdade, a assistente da editora se oferecera para cuidar de Noah por algumas horas, enquanto o grupo se reunia no jantar.
Despiu-se e vestiu-se em tempo recorde. Onde estavam os sapatos? Os sapatos pretos chiques...
	Eu posso ficar com Noah  ofereceu-se Jackson.
	Voc?  Gergia refazia a maquiagem diante do espelho do banheiro e quase se borrou com o delineador.  Oh, no, Jackson.  gentileza sua se oferecer, mas no poderia lhe pedir isso.
	Por que no?  rebateu ele.  Eu quero. Honestamente. Ns vamos nos divertir.
	Mame, posso ficar com Jackson, por favor?
Gergia espantou-se ao ouvir a voz do filho. Embora distrado com a televiso, ele ouvira a oferta de Jackson.
	Sei quando estou derrotada. Acho que est bem.
	Oba!  exclamaram os dois.
Gergia abriu a porta.
	Uau!  elogiaram os dois, ao v-la.
	Mame, voc est linda.
	Muito bonita  confirmou Jackson, fascinado.
Gergia sorriu.
	Obrigada.
O telefone tocou. Jackson estava prximo do aparelho e atendeu. Gergia achou o gesto um tanto rude, mas ento percebeu por que ele fizera isso.
	Sim, ela est bem aqui  informou ele, e lhe passou o fone.   para voc. O seu... compromisso est no saguo, esperando.
Gergia percebeu a expresso carrancuda. Estava com cime, concluiu, satisfeita. De repente, achou bom no ter revelado ainda seu segredo. Que ele se torturasse mais um pouco. Isso poderia lhe favorecer.
Conversou rapidamente com Mark Beckman, o rapaz do departamento de publicidade que viera para escolt-la, e desligou.
	Bem, j vou, ento  anunciou a Noah e Jackson.  No o deixe comer muita bobagem, por favor  pediu ao adulto.  E certifique-se de que ele escove os dentes.
	No se preocupe. Eu tomo conta dele  prometeu Jackson.  A que horas vai voltar?
	... no tenho certeza. No tarde demais, acho.
	Bem, no precisa se apressar... mas eu tenho de acordar cedo amanh  avisou Jackson.  No quero ficar at muito tarde.
	Oh, est bem. Vou me lembrar disso. Mais alguma coisa?
	Sim.  Jackson tirou do bolso do palet um telefone celular.  Tome, leve isto. S para o caso de uma emergncia. Desse jeito, sei como encontr-la.
Ele explicou como usar o aparelho.
	Perfeito.  Gergia guardou o telefone na bolsa. Deu um beijo de boa-noite no filho e acenou para Jackson.  Divirtam-se.
	Voc tambm  retribuiu Jackson, elegante, embora falasse por entre os dentes cerrados.
O jantar de negcios de Gergia correu muito bem. Todos foram gentis e elogiaram muito seu trabalho. A equipe toda parecia entusiasmada com o sucesso potencial de seu novo lanamento e dos ttulos que se seguiriam. O pessoal do departamento de publicidade j planejava uma turn e o do departamento de marketing projetava as vendas. Gergia no entendia o jargo, mas esperava que a editora esclarecesse suas dvidas quando se encontrassem no dia seguinte, em particular. Era informao demais para absorver em to pouco tempo. Mas um fato parecia claro... todos acreditavam que ela logo ficaria famosa. Famosa e rica.
A ideia era cmica. Tanto que ela evitava pensar muito nisso.
Mesmo assim, o que todo aquele sucesso significaria, se no tivesse Jackson? O dinheiro no lhe traria felicidade ou conforto verdadeiro.
Enquanto o pessoal da editora trocava ideias, Gergia pensava em Jackson. Ele telefonara tantas vezes para o celular... perguntando se estava tudo bem... que decidiu desligar o aparelho.
Finalmente, o jantar acabou e Gergia voltou para o hotel. Subiu no elevador sozinha, sentindo-se de bem com a vida. Estava pronta para coiitar tudo a Jackson... sobre sua carreira e tambm sobre seus verdadeiros sentimentos por ele.
Era um grande risco. Ele poderia rir do seu entusiasmo. Mas qual o sentido da vida se se amava algum como ela amava Jackson... e nunca lhe dissesse?
Entrou na sute e encontrou Jackson estendido no sof, lendo. Ele tirara o palet, a gravata e os sapatos. A camisa estava parcialmente aberta, expondo um pouco dos plos macios do trax.
Ele abandonou o livro e se empertigou sentado assim que a viu.
	Ol, tudo bem por aqui?  indagou ela.
	Sem problemas. Levei Noah ao centro para visitar o Empire State Building e ento fomos a um restaurante japons. Ele leu sobre esses restaurantes e queria experimentar. Acho que gostou. Foi direto para a cama quando chegamos. Acho que ficou cansado com a viagem e toda a agitaco.  Fez uma pausa e a fitou.  E como foi o seu... compromisso?
	timo  avaliou Gergia. Sentou-se na poltrona perto dele e juntou as mos ao colo.  No foi um encontro, propriamente, mas... um jantar de negcios.
	Mesmo?  Jackson ergueu o sobrolho.  E que negcios seriam, Gergia? Ou devo cham-la de M. G. Price?
Gergia prendeu a respirao. Sentiu um frio no estmago, como se estivesse num elevador em queda livre.
	Voc sabe sobre a minha carreira? Noah lhe contou?
	No, no foi Noah. Voc foi citada na televiso esta noite, num programa de variedades. Era uma reportagem sobre novos escritores do gnero mistrio. Mostraram a sua foto. Bela foto. E boa crtica tambm. Por acaso, estava lendo seu ltimo livro...  Jackson mostrou a capa.  Eu o comprei no outro dia. Gostei tanto daquele que me deu que procurei outros ttulos da mesma autora. Talvez possa autograf-los para mim.
Gergia estava atnita com a aparente tranquilidade dele. J o conhecia bem o bastante para reconhecer a calmaria antes da tempestade.
	Eu ia lhe contar, Jackson... Eu ia lhe contar pouco antes de sair, na verdade.
	Por que no me contou quando nos conhecemos, l no Texas?
	Voc est muito zangado comigo?
	Devia estar.  Ele se levantou e comeou a andar em crculos.  Mas, toda vez que olho para voc... principalmente com esse vestido preto...  Admirou-a e passou a mo nos cabelos.  Bem... s sinto felicidade por v-la novamente...  difcil permanecer zangado com voc, Gergia.
- Bem, isso significa algo  respondeu ela, um pouco mais tranquila ante a confisso.
	Por que no me contou?  insistiu Jackson.  No era nada vergonhoso, no precisava mentir. Devia ter orgulho.
	Nunca menti, s omiti  observou ela.  E quanto a sentir orgulho... bem, talvez seja essa a questo.
	Qual  a questo? No entendo sua complexa lgica texana.
Com Jackson to prximo em sua frente, Gergia percebeu que ele precisava se barbear. Quis passar a mo e sentir a textura do maxilar spero, mas desviou o olhar para recompor os pensamentos.
	Sei que  difcil entender. Eu queria que voc ficasse comigo... por mim. Depois de tudo o que disse naquela primeira noite, quando me chamou de oportunista e afirmou que eu era inadequada para um homem como voc...
	Para meu irmo  corrigiu ele.  No falvamos de mim.
	Estava falando de si mesmo, Jackson. Tive certeza disso quando me beijou.
Ele suspirou.
	Continue.
	Acho que foi bobagem da minha parte. E imaturidade  reconheceu Gergia.  Eu s queria que voc me amasse tanto a ponto de no se importar com minha pobreza ou minha falta de educao formal. Ou com o fato de ser me solteira  completou, baixinho.  S queria que me amasse... por mim.
Gergia sentiu um n na garganta e os olhos marejados. No conseguia encar-lo. Fechou os olhos, desejando que ele simplesmente fosse embora.
Mas Jackson no foi. Ajoelhou-se diante dela e lhe tomou o rosto.
	Abra os olhos, Gergia  pediu.  Vamos, querida...
Devagar, ela obedeceu. Encontrou o rosto de Jackson muito prximo, a expresso sria e solene. De repente, sentiu medo do que ele diria.
Ao fit-lo nos olhos, porm, sua esperana renasceu. Eles continham uma mensagem prpria. De calor, amor e desejo.
	Gergia, lamento tanto  declarou ele.  Eu realmente a amo. Por sua causa. Por voc. Por ser nica, pouco convencional, corajosa, engenhosa, maravilhosa, teimosa. Ainda no descobriu isso?
	Ama?  duvidou ela.  Mas e tudo o que disse sobre mim... Principalmente, naquela primeira noite, quando entrou na minha casa nervoso, procurando por Will?
	Oh, por favor...  implorou Jackson, cobrindo o rosto com as mos.  No vamos falar disso. Agi como um idiota. Por favor, esquea o que eu disse. Esquea tudo! Exceto que a amo. Eu a amo tanto que... bem, estou quase perdendo a cabea, para dizer a verdade. Por que outro motivo eu me acabaria tentando ficar longe de voc todas essas semanas? No imagina quantas vezes peguei o telefone para falar com voc... ou para reservar uma passagem area.
	Bem, voc com certeza me enganou  replicou Gergia.  Pensei que estivesse tudo acabado quando no soube mais de voc... exceto quando mandou o microcomputador para Noah.  Engoliu em seco.  Falou um tanto distante ao telefone, pelo que me lembro.
Jackson franziu o cenho.
	Eu sei. Quase morri. Mas no podia me revelar a voc... no estava pronto. No tinha chegado ao fundo do poo ainda  explicou, humilde.  No podia lhe dizer francamente como me sentia... e no parecia haver meio-termo. Desculpe-me se a magoei, Gergia. Mas, se  consolo, saiba que sofri como um condenado todas as noites desde que deixei a sua cama. Mal posso respirar sem pensar em voc.
	Eu me senti assim tambm  confessou ela.
	Agora que estamos juntos de novo, finalmente, no quero me separar de voc jamais. Fica comigo?
	Fico  declarou ela, e sorriu amorosa.
Ele a abraou e beijou. Gergia escorregou da poltrona e se deitaram no cho, saboreando o momento juntos.
Sem necessidade de palavras, transferiram-se para o quarto. Fecharam a porta, caram na cama e despiram um ao outro, famintos, entre beijos vorazes.
Gergia deitou-se, tomada pelo prazer sob as carcias de Jackson. Amava-o tanto que no conseguiria descrever o que sentia. Jamais entenderia o capricho do destino que os fizera se conhecerem. Agora, sabendo que era correspondida, nunca o deixaria partir.
Somente horas depois, relaxou nos braos do amado.
O dia raiava. Dali a pouco, Jackson iria para casa trocar de roupa e voltaria ao hotel para acompanh-los no brunch, o caf da manh reforado. Planejavam como contar a Noah que iam se casar.
	Acha que ele vai gostar da ideia?  indagou Jackson, de repente preocupado.  Sei que ele vai ter de se acostumar a partilhar voc...
	Ele vai adorar  assegurou Gergia.  Fala em voc sem parar  revelou, risonha.  J estava enlouquecendo com isso. Se havia alguma chance de eu esquecer voc, Noah garantiu que isso no acontecesse.
	Eu amo esse garoto!  exclamou Jackson.  Sabe, estive pensando e acho que devamos levar Noah na nossa lua-de-mel.	
Gergia afastou-se e o encarou.
	Tem certeza? Mas...
Jackson lhe acariciou os cabelos.
	J planejei tudo. Vamos para um lugar tropical, romntico e... educativo.
	Vai me contar ou terei de adivinhar? Talvez possa me dar uma pista... como em "Teste o seu Q.I.".
	Bom,  um lugar onde h pinguins... e talvez encontre sua irm e seu cunhado.
Gergia arregalou os olhos, boquiaberta.
	Vamos para as ilhas Galpagos na lua-de-mel?  Mal se continha de tanta alegria. Jackson era surpreendente, formidvel...
Ele deu de ombros.
	No faz sentido? Will me disse que o lugar  perfeito uma lua-de-mel... ele deve saber.
Sorrindo, Gergia apoiou a cabea no trax amplo.
	Sim, Will... Lembre-me de comprar um presente especial para ele, est bem?
- Um presente? De casamento?
	Oh, no. Esse eu enviei h semanas, para a sala dele na universidade. Mas devo a Will um presente de agradecimento por armar um esquema que me levou a conhecer o irmo dele, um sujeito turro, sabe...
Jackson a beijou.
	Nesse caso, tenho um dbito ainda maior com ele por colocar voc em minha vida, Gergia...
Beijaram-se novamente, com paixo, e Gergia imaginou se no seria de fato uma oportunista... cnscia de que o amor e o compromisso de Jackson eram o maior tesouro de todos.

FIM
